Sobreviventes: histórias de quem superou o suicídio

No Brasil, são 32 mortes diariamente por suicídio, e o Rio Grande do Sul lidera os registros no país, com 10,4 casos a cada 100 mil habitantes

Faltando quatro dias para completar vinte anos de idade, a venâncio-airense Monyque Schmidt, decidiu tirar a própria vida. Em uma noite de novembro de 2014, a jovem pegou uma arma de fogo e disparou contra o seu peito, na tentativa de livrar-se do sofrimento. O tiro lesionou a medula e tirou de Monyque a capacidade de andar. “Uma semana antes eu tentei me enforcar nos fundos da minha casa, mas a corda era muito fina e arrebentou”, lembra. Após essa primeira tentativa não ter dado certo, ela seguiu com o objetivo de não viver mais. Tomou trinta comprimidos de seu pai e disparou o tiro. “Coloquei a arma na minha cabeça, mas pensei que pudesse ficar com alguma lesão cerebral, caso não morresse, então disparei no peito, não sabendo que poderia atingir a coluna”.

A jovem conta que pediu ajuda para sua irmã por meio de uma rede social – pois não vivem juntas. “Eu pedi para ela não contar para meus pais o que estava acontecendo, e por medo de não me abrir mais com ela, acabou não contando nada a eles”. Monyque diz que foi o pior mês de sua vida, em que tudo deu errado, tanto na vida pessoal como profissional. “Eu pensava que não era capaz de nada, me sentia burra e inútil”. Na semana em que cometeu a tentativa de suicídio, ela não sentia vontade nem mesmo de levantar-se da cama. “Eu gostava de viver, mas parecia que aquela dor nunca ia acabar”.

Com o apoio do namorado Ricardo e da família, Monyque refaz a vida. Faz questão de dividir sua experiência, para auxiliar outros jovens. Foto: Alvaro Pegoraro / Folha do Mate

No aniversário de vinte anos, passou internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital Bruno Born, em Lajeado – RS. Ao todo, foram dez dias na casa de saúde, e após, reabilitação em Brasília – DF, com acompanhamento de Psicólogo e Médico Psiquiatra, em um período de dois em dois meses, durante dois anos. “Se antes eu achava que tinha problemas, depois tive muito mais. Precisei aprender a viver em uma cadeira de rodas”. A jovem conta que no início foi difícil acostumar-se com a nova vida. “Eu não conseguia nem lavar uma louça, dependia de alguém até para me alcançar um copo de água, mas superei isso e hoje já consigo fazer algumas coisas sozinha”.

Para ela, isso foi a chance de ver as coisas diferente e sua percepção de vida mudar completamente. Até hoje recebe pessoas em sua casa para contar sua história e ajudar quem está sofrendo ou quem perdeu pessoas de seu convívio para o suicídio. “Tenho um pouco de medo de me expor porque a sociedade ainda julga a atitude que eu tive, até olham torto para mim, então eu vou devagar”. Ela lembra a força que recebeu da família e principalmente dos pais. “Se não fosse eles, eu não teria aguentado encarar essa nova vida”.

Lovane Schmidt, 52 anos, mãe de Monyque, diz que tem medo do futuro. “Tenho preocupação com o futuro dela, do dia em que eu não estiver mais aqui. Superar não superei, mas me acostumei com a situação”, diz. Hoje, com 23 anos, a garota segue fazendo reabilitação em Brasília, de seis em seis meses, e tem planos para o futuro. Pretende continuar ajudando outras pessoas com sua história e cursar uma faculdade, depois de decidir entre psicologia ou pedagogia.

“O guri tá pendurado, o guri se matou”

Aquele 25 de novembro de 2015 amanheceu diferente para Patrick Andrei Wilges, de 22 anos. Levou a irmã para a escolinha e voltou para casa. Antes de a mãe ir trabalhar, o último pedido: que ela deixasse um pedaço de panetone cortado. Débora Muller Wilges, atendeu ao pedido do filho e foi trabalhar. No próximo final de semana, o jovem iria prestar vestibular para Engenharia Mecânica, na Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), e continuava estudando para ser aprovado no concurso da Escola de Sargento das Armas (ESA) – que era o seu principal objetivo. Próximo das 14h50 da tarde daquela quarta-feira, a última ligação para a mãe, que acabou não atendendo o celular e ficando sem saber o que ele queria dizer. Após isso, uma mensagem enviada para a ex-namorada via WhatsApp como despedida dela, amigos e família, e Patrick decidiu que não queria mais viver. Um trecho da mensagem dizia: “Estou perdido aqui. Esse mundo não é meu. Não tenho objetividade aqui. Diz para o pessoal que não guardo magoa de ninguém, e que amo muito minha família, mas agora estou escolhendo isso para mim. E essa escolha é somente minha”. Por volta das 15h15, o jovem foi até a varanda de casa, estendeu toalhas para que as pessoas não se deparassem com a cena, e se enforcou com um fio que estava jogado no chão. Diferente de Monyque Schmidt, quem conta essa história é Débora – a mãe que perdeu o filho para o suicídio.

Funcionária Pública Municipal e mãe de dois filhos mais novos, ela ainda procura respostas. Tentando seguir em frente, lembra sobre o dia mais difícil de sua vida. “Uma amiga dele me ligou e perguntou se eu podia vir para casa porque a casa estava toda aberta e ele não atendia o celular”. Preocupada, ligou para o marido e pai de Patrick, Rogério Wilges. “Pedi para ele ir para casa porque estava mais perto do que eu”. Rogério conta que pensou que fosse um assalto. “Cheguei e vi um monte de gente na frente da nossa casa, quando vi a Polícia Civil tive quase certeza de que era um assalto, mas não era”. Débora também lembra a ligação do marido dando a notícia. “O guri tá pendurado, o guri se matou”.

Mãe e os irmãos de Patrick, Pablo e Priscila. Foto: Caroline Silva

“Na verdade ainda não entendemos porque ele fez isso”, afirma a mãe de Patrick. Ela conta que nos últimos dias de vida do filho tudo o irritava, mas nada que fosse diferente dele. “Foi um choque para nós porque nunca imaginamos que ele pudesse fazer algo assim”. Meses depois do ocorrido, a família decidiu se mudar para recomeçar em outro lugar. Por escolha dos pais, os irmãos ainda não sabem de toda a verdade, pensam que ele caiu e bateu a cabeça. “Quando ele saia eu não conseguia dormir até ver que ele havia chegado em casa”, lembra o pai.

Sobre os primeiros dias depois da morte do filho, ela conta que foi difícil, mas que precisava ser forte para dar força para os filhos e para o marido, que pensava até em tirar a vida depois do ocorrido. Após dois anos, a família está conformada. Aos poucos seguem em frente. “Graças a Deus tudo esta se encaminhando. Precisei ser muito forte, mas hoje seguimos com a saudade e a sempre lembrança do filho que ele foi”, finaliza Débora.

Número de casos de suicídio na região do vale do Rio Pardo preocupa

No Brasil, são 32 mortos diariamente por suicídio, taxa superior à de vítimas de aids e de alguns tipos de câncer. E o Rio Grande do Sul lidera os registros no país, com 10,4 casos a cada 100 mil habitantes – é o dobro da média nacional.

A região do vale do rio pardo preocupa com os altos índices de suicídio. Há três anos, o Mapa da Violência apontou que, das 20 cidades brasileiras com maior índice de autocídio, 11 são gaúchas. Entre elas, três estão no Vale do Rio Pardo: Santa Cruz do Sul, Venâncio Aires e Encruzilhada do Sul. Em 2015, em Santa Cruz do Sul – cidade gaúcha com cerca de 102 mil habitantes- suicidaram-se 10 pessoas. Em 2016 foram 22 casos e em 2017, 10 casos entraram para a lista de suicídios, conforme Comitê de Combate aos Suicídios do município.

Venâncio Aires, cidade vizinha de Santa Cruz do sul, já foi conhecida como capital do suicídio, devido a um surto em 1996, em que foram registrados 37,22 casos de suicídio por 100 mil habitantes. Conforme a Vigilância Epidemiológica da cidade, em 2015 foram 15 óbitos, já em 2016 havia sido 11 casos, e em 2017, até junho desse ano, foram registradas três mortes.

Já em Encruzilhada do Sul, outro município da região do vale do Rio Pardo, foi registrado sete suicídios, no ano de 2014, e em 2015, seis. Em 2016 foi contabilizado dois, e em 2017 ainda não há dados, sendo a maioria por enforcamento, conforme a Vigilância Epidemiológica do município.

Em Santa Cruz do Sul há Comitê de Prevenção ao Suicídio

Criado em 2015, o Comitê Municipal de Prevenção ao Suicídio se reúne mensalmente para debater ações que podem ser feitas na cidade de Santa Cruz do Sul, a fim de reduzir os índices. O grupo é formado por 17 pessoas, entre psicólogos, enfermeiros, estudantes de psicologia, de serviço social e representantes de entidades. É também o Comitê que organiza o setembro amarelo – mês dedicado à conscientização da prevenção ao suicídio – na cidade. “Valorizamos a vida e é preciso que todos a valorizem para que o suicídio não seja uma opção. Precisamos saber por que isso ainda acontece”, avalia Marliza Schwingel, psicóloga e coordenadora do Comitê.

Comitê existe desde 2015 em Santa Cruz do Sul. Foto: Caroline Silva

Série 13 Reasons Why aborda o suicídio e aumenta a busca por ajuda no CVV

A série 13 Reasons Why retrata a história de uma garota que comete suicídio e deixa 13 fitas cassetes contando os porquês que a levaram a se matar. Criada pela Netflix, o seriado se conecta com a realidade de uma maneira especial ao mostrar as diversas tentativas falhas de obter ajuda por quem comete suicídio. A série virou “febre” entre os adolescentes, e segundo o Jornal Zero Hora, no início de abril, voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV) começaram a notar um crescimento na quantidade de contatos com pedidos de informação e ajuda. Os e-mails diários aumentaram, passando de uma média de 55 para 300. Os acessos ao site saltaram de 2,5 mil ao dia para 6,7 mil, e as ligações também cresceram.

Hannah Baker (Katherine Langford) de 13 Reasons Why. Foto: Divulgação/Netflix

A série também abalou adultos, que ficaram alarmados em relação aos filhos, e mobilizou psiquiatras e psicólogos, que assistiram os 13 episódios para avaliar que tipo de impacto a peça de ficção poderia ter sobre seus pacientes. Para o Médico Psiquiatra, Vinicius Alves Moraes, a série veio para somar, principalmente porque é do alcance dos adolescentes e jovens, mas é preciso sempre lembrar que é uma ficção. “Acho que qualquer meio que podemos conversar ou discutir sobre esse problema é válido, mas os jovens não podem tomar a série como verdadeira”, comenta.

A Psicóloga Darla Batista de Abreu também diz que foi uma aposta positiva dos criadores da série, principalmente porque é difícil acessar os adolescentes. “Acredito que é uma reflexão para todos nós nos darmos conta das nossas atitudes porque nunca sabemos se a forma que estamos reagindo com o outro está afetando ou não”.

O que dizem os especialistas sobre o suicídio

O Médico Psiquiatra e professor do curso de medicina, da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Vinicius Alves Moraes, explica que o suicídio é um surto psicótico, algo maluco, e na maioria dos casos é decorrente de um transtorno mental. Ele também explica que a depressão não é o único fator que leva ao suicídio – sendo causadora por apenas 15% dos casos – a dependência química, transtornos de humor bipolar e esquizofrenia também são fatores que podem ser associados. “O suicídio tem dois picos, o adolescente/adulto/jovem e pessoas com mais de 50 anos, e no pico da adolescência, a impulsividade e a falta de estrutura são fatores que elevam o risco de tirar a vida”, comenta o psiquiatra.

Segundo ele, o suicídio é um quadro grave no aspecto psiquiátrico e que nem sempre é fácil detectar que alguém não esta bem e esta precisando de ajuda, por isso é válido falar sempre mais sobre esse assunto. “O suicídio ou a ideação suicida é uma emergência médica, que não dá para esperar, então é importante que o indivíduo seja conduzido ao hospital para ser avaliado por um psiquiatra ou que seja encaminhado para o Caps”. O médico disse que a duração do tratamento é variada, e que principalmente no inicio a pessoa pode continuar tentando suicidar-se, por isso é importante que ela seja vigiada o tempo todo. Moraes diz que a prevenção do suicídio envolve várias coisas, como uma educação de qualidade, estrutura familiar, e cuidado materno infantil. “Eu diria também que a prevenção do suicídio começa na gravidez, do vinculo mãe e filho”.

Para a Psicóloga Darla Batista Abreu, o suicídio é um tema gritante. “Ninguém tira a própria vida por nada e nem por meros problemas. Suicídio é problema psíquico e transtorno. São muitos fatores para a pessoa chegar a esse ato”. Segundo ela, há também algumas etapas, como o planejamento, a tentativa e a morte. A psicóloga diz que o primeiro passo para livrar-se desse problema é pedir ajuda e receber muito apoio da família. “Corre maior risco de cometer suicídio a pessoa que esta passando de uma ótima fase para uma depressiva, quando ela esta no alto e de repente decai”. Darla também diz que não é possível explicar o que se passa na cabeça de uma pessoa que esta prestes a suicidar-se. “A pessoa cria um objetivo que é o de se matar porque esta passando por uma série de problemas, e nem sempre consegue na primeira tentativa”.

Para quem sente vontade de tirar a própria vida, a orientação é de que procure atendimento em uma Estratégia de Saúde da Família ou de um profissional de saúde mental da rede privada ou pública. Caso sinta vontade em um horário em que esses serviços não estejam disponíveis, ainda existe a opção de ligar para o Centro de Valorização da Vida (CVV). O CVV realiza apoio emocional e de prevenção ao suicídio de forma gratuita. Ele atende pelo telefone 141, 24 horas por dia.

Foto de capa: Michael Benz/ Unsplash

Fonte: acadêmica de jornalismo Caroline Silva. Reportagem interpretativa produzida para a disciplina de Jornalismo Impresso 1, sob orientação do professor Ricardo Düren. Junho de 2017/1.

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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