Relacionamento abusivo: não é amor, é cilada!

Psicóloga esclarece o que é e como se proteger de um relacionamento abusivo

“Só não meto a mão na sua cara porque vou preso”. “Você não vai sair com essa roupa não”. “Batom vermelho não é para mulher direita”. “Você está muito gorda, deveria emagrecer antes que eu te troque”. Você, mulher, já deve ter ouvido pelo menos uma das frases citadas anteriormente, as quais caracterizam uma conduta abusiva. Muitas vezes esse comportamento tóxico está presente na vida a dois e representa diversas situações de ameaça às vítimas, afetando a qualidade de vida dessas mulheres e de todos ao seu redor.

COMO COMEÇA

As relações abusivas geralmente começam de forma sutil, com brigas por ciúmes e o sentimento de posse. É o que alerta a psicóloga ANGELA OLIVEIRA, 25, especialista em terapia cognitivo-comportamental e especializanda em sexualidade humana, com dois anos de atuação no Centro Clínico do HCB. O temperamento possessivo, segundo a profissional, é um sinal de que com o tempo as cobranças irão aumentar e com isso o desgaste emocional.

“O abuso na relação inicia quando um se sente no direito de manipular e possuir o outro, controlar suas vontades e deixar de respeitar suas relações com amigos, colegas e familiares. O pensamento de que é ‘dono’ da outra pessoa, junto com a habilidade de manipular, faz com que o agressor convença o outro de que está certo e que faz isso por amor”, explica.

“Relações que apresentam muitas brigas têm potencial para se tornarem abusivas. Ciúmes excessivo não é prova de amor, quem ama confia. Dominação não é proteção, gritos não são carinho. Não romantize uma relação abusiva”, frisa a psicóloga Angela Oliveira

CIÚMES DOENTIO

Os comportamentos abusivos costumam ser explicados pelo agressor para a vítima como se fossem comportamentos de “proteção e cuidado”, como identifica a psicóloga. “O ciúmes muitas vezes é visto como prova de amor, o controle e dominação podem ser interpretados como proteção. Além de que há momentos em que o parceiro se mostra realmente cuidadoso e apaixonado, faz mimos e declarações, o que faz com que se mantenha o ciclo de dependência emocional, porém, logo voltam os abusos e as brigas”, destaca.

“Na medida em que o agressor tenta dominar a relação, o tempo, as amizades, as atividades, e a vítima vai dando a ele esse espaço, abrindo mão de suas opiniões, esse padrão dominador/submissa vai se perpetuando e levando assim a uma relação que traz prejuízos emocionais e sofrimento”, enfatiza.

Para uma relação saudável, a psicóloga recomenda que ambos devam ceder às vontades um do outro, mas sempre com respeito e cuidado. “Na medida em que também vão tendo suas opiniões respeitadas e assim tendo um equilíbrio onde decidem juntos e conversem sobre seus anseios e preferências, sem que aja uma dominação apenas de uma parte”, aconselha.

Crédito da foto: Reprodução/ Divulgação

EMPODERAMENTO FEMININO

Atualmente as mulheres estão mais cientes sobre seus direitos e sobre quais comportamentos aprovam ou desaprovam de um companheiro. Embora estejamos alcançando avanços, na prática as coisas ainda não funcionam tão bem quanto na teoria, como observa Angela: “Infelizmente ainda não podemos afirmar que se sentem também mais seguras, pois ainda há muitas falhas no sistema público responsável por acolher essas vítimas. E o fato de ainda vivermos em uma sociedade consideravelmente machista faz com que existam muitos julgamentos e falta de acolhimento devido, também por parte dos familiares e amigos”.

O compartilhamento de materiais informativos, a atenção dada pela mídia a esse assunto e a criação de leis sobre os diversos tipos de violências de gênero têm contribuído para que ocorra o empoderamento feminino e as denúncias de relacionamentos abusivos sejam feitas. Contudo, Angela salienta: “Temos que lembrar que não resolve apenas estimular que as denúncias ocorram, o mais importante é ajudar essas pessoas depois que isso acontece”.

HOMENS TAMBÉM SÃO VÍTIMA

Sim, homens também são vítimas de relacionamentos abusivos. Segundo Angela, esse assunto também inclui relações com outras configurações que não apenas de homem e mulher. “Vemos menos casos de homens que sofrem com isso, pelo fato que para eles pode ser mais fácil terminar essas relações. Mas é importante considerarmos que eles podem sofrer tanto quanto as mulheres, e que realmente precisam dessa ajuda”, reconhece a psicóloga, destacando que o apoio e a compreensão ofertados ao homem são maiores quando comparado às mulheres, em razão da cultura machista em que vivemos.

ANTIGAMENTE X HOJE: O QUE MUDOU?

Conforme Angela, em outros tempos as temáticas associadas aos relacionamentos eram tabus na sociedade e as pessoas por muitas vezes não tinham consciência que estavam vivendo em um relacionamento abusivo. “A dominação de gênero era (e por vezes ainda é) vista como natural e correta, sendo assim, comportamentos abusivos eram vistos como aceitáveis”, atenta.

“Considera-se relacionamento abusivo, aquele que causa sofrimento, que machuca, gera ansiedade e tristeza, em vez de trazer satisfação, prazer e cumplicidade, independente do gênero que estamos falando, se existe dependência e desgaste emocional, se configura uma relação abusiva”. ANGELA OLIVEIRA, psicóloga

7 SINAIS PARA DETECTAR UM RELACIONAMENTO ABUSIVO

. Presença de brigas e cobranças constantes
. Diminuição na autoestima da vítima
. Apatia
. Sentimento de culpa
. Isolamento social
. Dependência emocional do agressor
. Baixo nível de rendimento laboral

Fonte: Angela Oliveira

ASSISTA

Não confunda amor e abuso: vídeo criado pela organização norte-americana Day One mostra como reconhecer diferentes formas de abuso nas relações amorosas. Segundo a instituição, um em cada três adolescentes relatam algum tipo de abuso em seus relacionamentos amorosos.

ATENÇÃO

O abuso emocional pode ser seguido por violência física e até mesmo sexual e, em casos mais graves, pode acarretar até em morte, conforme alerta a psicóloga. A pessoa que vive em um relacionamento abusivo pode apresentar, entre outros sintomas: depressão e transtornos de ansiedade, como pânico e ansiedade generalizada. O silêncio e o afastamento de amigos ou parentes próximos, por sua vez, contribuem para a continuação dos abusos.

OS NÚMEROS

O Brasil ocupa a quarta posição do ranking da violência de feminicídio (morte intencional de pessoas do sexo feminino, classificado como um crime hediondo e homicídio qualificado no Brasil), segundo dados da OMS de 2015, e a quinta maior taxa no mundo, conforme a ONU.

2 PERGUNTAS PARA ANGELA OLIVEIRA, psicóloga

1) Como sair de um relacionamento abusivo?

“O primeiro passo sempre vai ser reconhecer que o abuso está ocorrendo, depois procurar pessoas que possam escutar e dar o apoio necessário no caso de separação. Porém, como uma das consequências desse tipo de relação é a o isolamento social, nem sempre as outras pessoas percebem que isso vem acontecendo. Então cabe a própria pessoa refletir sobre seus sentimentos e procurar alguém para conversar, como um profissional de saúde mental. Ficar atento a pessoas que apresentam essas emoções e se aproximar para oferecer ajuda também é importante, pois nem sempre a vítima vai se sentir segura e ter a iniciativa”.

2) É feito diagnóstico do indivíduo e/ou casal para constatar se, de fato, se trata de um relacionamento abusivo?

“Sim. Costumo fazer o diagnóstico e conversar sobre isso com o paciente. Por vezes é apenas a vítima que busca ajuda, por outras é o casal. Pode ser feito um tratamento com terapia para casais se for da vontade de ambos, porém, de acordo com minhas experiências nesses casos, geralmente quando a vítima percebe a situação e consegue visualizar o que estava acontecendo, opta por dar um fim na relação e se afastar do agressor. Até porque em muitos dos casos o agressor vê o abuso como natural e acredita ter direito de ter tais comportamentos, não demonstrando vontade de mudar, talvez em um primeiro momento sim, mas logo volta a sua antiga forma de se relacionar. Entretanto, não existe uma regra, podem existir casos em que nem o agressor perceba o mal que estava causando, e quando entende isso pode sim procurar ajuda e apresentar mudanças. Depende de cada contexto e pessoa”.

 

Fonte: Revista Linda (Edição 127 – agosto de 2018 / adaptado).

Texto: Gabriel Rodrigues

Revisão: Marielle Rodrigues de Oliveira

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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