O impacto e a influência da mídia na mente humana

Especialistas alertam para o consumo excessivo de notícias negativas à saúde mental. Ansiedade, estresse e depressão estão entre os principais sintomas

Hoje, a mídia é uma das partes mais importantes e influentes de nossas vidas. Em muitos aspectos, somos bombardeados por ela onde quer que estamos – na televisão, na internet, no rádio, em revistas e jornais, e mesmo em nossos celulares. Os meios de comunicação muitas vezes influenciam o que usamos, o que assistimos, o que comemos, o que lemos, onde saímos, o que percebemos como agradável e até como pensamos e sentimos.

Por outro lado, se você lê notícias com frequência suficiente, saberá que o mundo é povoado por políticos corruptos, banqueiros rapaces, estudantes universitários racistas e várias hordas de fanáticos armados. Nosso planeta não é um lugar gentil – pelo menos, se você acompanhar os últimos relatórios de mídia. Em 2007, por exemplo, o Pew Research Center divulgou dados mostrando que, durante as duas últimas décadas, os norte-americanos se interessaram principalmente pelos seguintes tipos de notícias: guerra e terrorismo relacionados aos Estados Unidos, mau tempo e desastres naturais e causados por seres humanos. Crime e violência social, além de saúde e segurança, também classificaram mais do que a maioria das outras categorias. Então, assuntos muito sombrios.

Diante desse cenário, aviões desaparecidos, bombardeios em série, bullying de adolescentes, derramamento de petróleo, surto de doenças, crise de hipotecas e julgamento de crimes dominam as manchetes mundiais. No entanto, esta não é a imagem inteira, nem mesmo a metade disso. Dessa forma, levantam-se as seguintes questões: Os jornalistas são atraídos a denunciar notícias ruins porque o desastre súbito é mais convincente do que melhorias lentas, ou os especialistas acreditam que a tragédia é o produto que dá mais resultado em termos de audiência, e quanto mais audiência maior o seu faturamento? Ou será que nós, leitores ou espectadores, treinamos jornalistas para se concentrarem nessa temática? Muitas pessoas costumam dizer que preferem boas notícias: mas isso é realmente verdade? Há também de se refletir sobre o poder da mídia no âmbito da subjetividade e como esta atua na construção de formas de ser e agir dos humanos, bem como a sua influência nas relações interpessoais, a fim de compreender porque a mídia se concentra em temas negativos e o que essa inclinação pode dizer sobre o público.

Cobertura jornalística durante confronto policial. Foto: Spenser H/ Unsplash

Jornais, rádio e programas de televisão transmitem as notícias 24 horas por dia, 365 dias por ano. Portanto, é quase impossível evitar más notícias e a influência negativa que essas têm em nossas vidas. Os tiroteios na escola, os ataques terroristas e os acidentes de avião, bem como o incessante ataque de violência de todas as formas de mídia, podem ter repercussões psicológicas duradouras e, em última instância, levar a pensamentos catastróficos de mundo. É assustador notar que quase dois terços de todos os programas de TV contêm alguma violência física, de acordo com a empresa Nielsen Company.

Nossos cérebros são difíceis de se concentrar no chocante e horrível. O consumo diário de notícias negativas pode gerar pensamentos negativos e influenciar significativamente a forma como vemos nossas vidas e o mundo, levando-nos a ver nossas vidas como mais angustiantes do que realmente são. Pesquisas mostram que a visualização de imagens traumáticas nas notícias pode causar sintomas do tipo pós-traumático (TEST). Em 2001, o mundo acompanhou pela mídia internacional o ataque às Torres Gêmeas, na cidade de Nova York (EUA). Estudos mais tarde mostraram que visualizar essas imagens desencadeou o medo na população e reduziu a confiança na segurança da nação americana.

Atentado às Torres Gêmeas nos EUA. Foto: Reprodução/ Divulgação

Os psicólogos também observaram que esta exposição à violência gráfica e a mídias negativas pode causar uma sobre-sensibilização, onde nos tornamos mais sensíveis e pessimistas ou podemos levar a uma dessensibilização, nos quais estamos realmente entorpecidos nos efeitos da violência. Infelizmente, esse pessimismo pode levar-nos a ignorar informações positivas na mídia e no mundo, como por exemplo, a descoberta de cura de doenças, resgates e campanhas solidárias, que contribuem a favor da sociedade e exercem influência positiva sobre a mesma.

1.1) Discordância entre o que acontece no mundo e a contabilidade da mídia

Apesar do desfile diário de sofrimento em notícias veiculadas pelos meios de comunicação, muitas pessoas acreditam que o mundo está melhorando, e não piorando. Em “The Better Angels of Our Nature: Por que a violência foi recusada”, o psicólogo de Harvard, Steven Pinker, argumenta que estamos experimentando o momento mais pacífico da história humana. “Na América, estatísticas do FBI indicam uma queda dramática no crime violento, estupro, assalto e assalto agravado entre os anos de 1993 e 2012 (as taxas passaram de 747 incidentes violentos por 100 mil pessoas em 1993 para 387 incidentes por 100 mil pessoas em 2012). Depois, há os avanços na igualdade para as mulheres, as minorias e a comunidade LGBT. Para cada artigo de jornal sobre uma criança que não chegou em casa com segurança depois de um dia no parque com amigos, milhões de caminhadas bem-sucedidas não são relatadas” (Revista Pacific Standard, 2015).

“As pessoas sempre querem más notícias porque não querem que essas situações ruins aconteçam com elas”, defende a autora Jill McCluskey, professora de economia da Universidade Estadual de Washington. Por outro lado, Stuart Soroka, professor de estudos de comunicação e ciência política da Universidade de Michigan, diz: “Estamos vivendo, e sempre vivemos, em um ambiente muito rico em informações. Não podemos prestar atenção a tudo. Precisamos de alguma heurística que nos ajude a selecionar a informação que é importante e a informação que não é – ou pelo menos a informação que nos obriga a mudar nosso comportamento versus a informação que não”. O autor acredita que esta perspectiva programada é o que torna as más notícias tão atraentes.

Soroka, no entanto, não está tão convencido de que a notícia precisa ser positiva. Na verdade, como o cão de guarda sempre vigilante do público, a imprensa independente deve ser negativa. Isso significa expor a fraude corporativa e o abuso do governo, juntamente com todos os casos de injustiça encontrados em todos os níveis da sociedade e responsabilizar as pessoas no poder. Em certo sentido, o pesquisador argumenta, “os meios de comunicação de massa devem valorizar as más notícias sobre outras informações lá fora, da mesma forma que o cérebro varre constantemente seu ambiente para possíveis ameaças”. “O papel da mídia em uma democracia é monitorar o erro”, conclui.

1. 2) O fluxo de informação nas mídias sociais

Ao anunciar uma nova seção positiva do The Huffington Post em 2015, Arianna Huffington escreveu que os leitores do site compartilhavam conteúdo mais positivo do site no Facebook do que qualquer outro tipo de história. Dessa forma, Huffington sugere que as histórias positivas são mais propensas a serem compartilhadas nas redes sociais. Compartilhar conteúdos de notícias em mídias sociais é, no entanto, fundamentalmente diferente de selecionar e ler artigos. É uma descoberta que combina com a pesquisa de Jonah Berger, professora de marketing da Wharton School da Universidade da Pensilvânia e autora de Contagious: Why Things Catch On. No entanto, “mesmo que tenhamos tendência a encaminhar material positivo através de mídias sociais, nossos hábitos de leitura de notícias ainda podem dar prioridade a informações negativas. Há, afinal, um crescente número de evidências que ilustram a tendência humana de priorizar o conteúdo de notícias negativas sobre positivo” (LSE United States Centre, 2015).

Foto: Reprodução/ Divulgação

À medida que a nossa vida off-line se estreita cada vez mais à on-line, o setor de notícias pode ser forçado um dia, por causa da sobrevivência, a mudar sua ênfase de histórias negativas para as positivas que as pessoas tendem a espalhar em suas redes sociais. Por mais improvável que possa parecer, o Facebook está atualmente em negociações com as principais organizações de notícias sobre como hospedar seus conteúdos dentro da rede social em vez de exigir que os usuários mundiais (1,4 bilhões) cliquem em links que os redirecionem para sites externos. “Os meios de comunicação certamente mudam o que eles escrevem em um esforço para perseguir globos oculares. Então, podemos ver uma mudança para conteúdo mais positivo à medida que as pessoas tentam perseguir compartilhamentos, mas mais importante é prestar atenção às métricas que realmente geram os resultados que você se preocupa”, esclarece Berger.

“O perigo com tudo isso é que nós esquecemos que más notícias são realmente uma boa notícia, porque mostra que a sociedade ainda se importa quando as pessoas más fazem coisas ruins. Claro, a vida pode estar melhorando para muitos, mas ainda está longe de ser perfeita para a maioria, e o público gostaria de lembrar disso. E se é verdade que uma barragem de más notícias, dia após dia, pode causar cinismo, também não é verdade que um dilúvio de boas notícias pode gerar complacência? A situação ideal requer um equilíbrio saudável” (revista Pacific Standard, PAUL HIEBERT, 22 de abril de 2015).

1.3) Por que notícias ruins vendem mais?

Um crescente número de evidências ilustra a tendência humana de priorizar o conteúdo de notícias negativas sobre positivo. Mas por que isso? Responder a esta pergunta é o foco de “Notícias, Política e Negatividade“, um artigo de Stuart Soroka e Stephen McAdams que baseia-se no trabalho em psicologia, economia e comunicações políticas para sugerir que os humanos podem ter predisposição neurológica ou fisiológica para se concentrar em informações negativas. O argumento tem suas raízes em um relato biológico-evolutivo de como os humanos decidem o que prestar atenção. “É evolutivamente vantajoso priorizar informações negativas”, argumenta o artigo, porque “o cérebro humano é predisposto a focar a informação negativa”, destaca Soroka. Assim, o autor sugere que os humanos podem ter predisposição neurológica ou fisiológica para se concentrar em informações negativas porque os custos potenciais das informações negativas superam em muito os benefícios potenciais da informação positiva.

Em um estudo de 2012, Soroka e McAdams descobriram que, quando 63 participantes entre 18 e 38 anos receberam notícias negativas (por exemplo, abuso infantil, falta de vacinas), suas respostas fisiológicas – frequência cardíaca, produção de suor – ficaram mais ativas do que apresentado com notícias positivas (por exemplo, um menino que sobreviveu a leucemia, a criação de escolas sem propinas). Em outro estudo publicado em 2014, Soroka desenvolveu um experimento de laboratório em que os participantes visualizam uma seleção de histórias reais de notícias de televisão, enquanto monitoravam uma série de indicadores fisiológicos, incluindo frequência cardíaca e condutância da pele. Essa última capta o grau em que estamos transpirando, que muda constantemente de maneiras muito pequenas, e que geralmente é usado como medida de ativação ou excitação. A diminuição da frequência cardíaca, por sua vez, é utilizada como medida de atenção. Assim, evidencia as implicações que um viés de negatividade nos cérebros dos humanos tem pela natureza do conteúdo de notícias. O estudo é um dos primeiros a demonstrar essa tendência usando conteúdo real de notícias de televisão.

Como esperado, mais tempo foi gasto em conteúdo negativo do que em conteúdo mais neutro ou de natureza positiva. Menos esperado, no entanto, era que esse comportamento era verdadeiro mesmo para os participantes que declaravam preferência pela boa notícia, o que implicava a existência de um radar de segurança subconsciente ou hipocrisia. “O comportamento dos jornais e programas oferece uma pista óbvia – as agências de notícias buscam público, afinal, e a experiência (e vendas) aponta para o valor da informação negativa. Por exemplo, as vendas de revistas de jornais aumentam em aproximadamente 30% quando a cobertura é negativa e não positiva. Não é nenhuma surpresa, então, que um ‘dia da boa notícia’ resultou em uma queda de 66% nos leitores em um jornal russo on-line. De fato, outras pesquisas sugerem que, mesmo quando os participantes dizem que gostariam de notícias mais positivas, eles ainda selecionam notícias de notícias em linha que são predominantemente negativas. Mesmo que os e-mails e feeds do Facebook sejam bons, nossos hábitos de consumo de notícias ainda priorizam as informações negativas” (SOROKA, Stuart).

Foto: Reprodução/ Divulgação

As descobertas sugerem que o conteúdo de notícias negativas da rede, em comparação com o conteúdo de notícias positivo, tende a aumentar a excitação e a atenção. Em contrapartida, o conteúdo de notícias positivas tem um impacto imperceptível nas medidas fisiológicas em que nos concentramos. “De fato, fisiologicamente falando, uma notícia positiva não é muito diferente da tela cinza, mostram os participantes. O conteúdo das notícias é predominantemente negativo porque os seres humanos tendem a estar mais atentos às informações negativas”, observa Soroka.

Para o autor, “concentrar-se em informações negativas pode ser uma maneira perfeitamente razoável de gerenciar um ambiente de notícias complexo. Normalmente, precisamos mudar nosso comportamento, ou nossa avaliação de políticos, quando algo der errado, e não quando algo corre bem. Assim, a menos que tenhamos uma quantidade ilimitada de tempo para prestar atenção a tudo, podemos ser bem servidos focalizando a informação que exige uma mudança de nossa parte – desde que toda a negatividade também não leve a um ceticismo ou desentendimento”.

Assim, ele deixa claro que a maior dificuldade é que não conhecemos a quantidade de negatividade “apropriada”. Nem sabemos se existem maneiras de ajustar nossos preconceitos de negatividade. Em outra pesquisa em conjunto com os autores Patrick Fournier e Lilach Nir, é explorada a possibilidade de que os vieses de negatividade variem sistematicamente em todas as culturas e sistemas de mídia. “Se os preconceitos de negatividade mudam de um país para outro, podemos aprender algo sobre como as comunicações e os contextos políticos podem aumentar ou diminuir nosso interesse em informações negativas sobre positivas”, defende Soroka.

Há de considerar as implicações que as mídias sociais têm sobre o tom do conteúdo de notícias que recebemos. “Se recebemos cada vez mais conteúdo de notícias através das redes sociais e se os usuários de redes sociais tendem a encaminhar informações positivas e não negativas, podemos esperar o tom do nosso ‘fluxo de notícias’ (todas as notícias que recebemos por meios tradicionais ou não tradicionais) para se tornarem mais positivos em geral. Se isso leva a um eleitorado mais informado ou atento é, porém, outro assunto. Podemos estar melhor informados sobre as iniciativas políticas bem-sucedidas e, alternativamente, perder o interesse (ainda mais) na política”.

Foto: Reprodução/ Divulgação

Segundo publicação da associação Psychological Science no jornal norte-americano Sage (2003), há algumas evidências de que as pessoas respondem palavras mais rápidas a negativas (BBC, 2014). Marc Trussler e Stuart Soroka da Universidade McGill, realizaram pesquisas sobre como as pessoas se relacionam com as notícias, convidando os participantes a vir para a universidade para ver notícias e os pesquisadores realizaram experimentos de rastreamento ocular enquanto isso ocorreu. A maioria dos participantes escolheu histórias com um giro negativo, como corrupção e hipocrisia, em vez de histórias positivas. Isto foi particularmente verdadeiro para pessoas interessadas em assuntos atuais.

Trussler e Soroka concluíram que isso era evidência de um viés de “negatividade”, um desejo de ouvir e lembrar de más notícias. Eles também concluíram que as pessoas prestam atenção às más notícias, porque acreditam que o mundo é mais real do que realmente é, e quando se trata de suas próprias vidas, a maioria das pessoas acredita que é “melhor do que a média” e as coisas acabarão bem no fim. A teoria leva à constatação de Tom Stafford, professor de psicologia e ciências cognitivas da Universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha: “Somos atraídos por histórias deprimentes sem perceber”.

1.4) O impacto das mídias sociais na sociedade

A psicologia da mídia enfoca a relação entre o comportamento humano e os meios de comunicação (jornal, rádio, TV, internet); estuda a interação entre indivíduos, grupos e tecnologia, e tenta dar sentido a essa sinergia. Na década de 1950, quando a televisão se tornava uma forma popular de entretenimento, os psicólogos da mídia ficaram preocupados com as crianças e seu entusiasmo pela visualização da televisão e o impacto, se houver, em suas habilidades de leitura. Os psicólogos posteriores começaram a estudar o impacto da visão violenta da televisão sobre o comportamento das crianças e se elas eram mais propensas a exibir comportamentos sociais.

Dra. Sarah Vinson, psiquiatra infantil e adolescente, diz que a mídia continua a consumir uma parte cada vez maior da vida das pessoas. As pessoas e os jovens especificamente não têm a interação face a face que eles precisam para aprender habilidades sociais, e cada vez mais crianças estão tendo um curto período de interação com outras pessoas, o que pode levar a comportamentos insociáveis. “Com canais de notícias 24 horas, telefones, internet e televisão, os jovens estão simplesmente tentando descobrir como eles se encaixam neste mundo, e eles olham para a mídia para a resposta. Isso, no entanto, é o novo normal. Os jovens cresceram com tudo isso, e os pais estão tentando recuperar o atraso. Mesmo assim, precisamos limitar o tempo de tela, especialmente se estiver preenchendo um vazio para a criança ou interferindo nas conversas presenciais” (VINSON, Sarah). Dra. Pamela Rutledge, diretora do Centro de Pesquisa de Psicologia de Mídia e professora de psicologia da mídia na Fielding Graduate University, propõe a reflexão: “O que as pessoas prefeririam, um prato de comida que é entregue a você ou um buffet? A mídia oferece escolhas; quais tecnologias queremos usar, cada uma com um nível ou exploração diferente”.

Foto: Reprodução/ Divulgação

Na obra “Nos bastidores da mídia”, escrita pelo jornalista Michelson Borges, editor da revista Vida e Saúde, é dito que, “em muitos casos, a mídia de massa tem sido usada para manipular a maneira de pensar e o comportamento das pessoas”. Diante desta constatação, levantam-se os seguintes questionamentos: “Que interesses estão por trás dessa manipulação?” “Como se tornar consciente de tudo isso e se proteger?”. A mídia vem se configurando como uma poderosa ferramenta formuladora e criadora de opiniões, saberes, normas, valores e subjetividades. Deu na Scientific American, por exemplo, que “a televisão causa dependência”. O Estado de São Paulo e a Globo News destacaram a matéria de capa da famosa revista de divulgação científica. Nela, os pesquisadores Robert Kuebey, da Universidade de Rutgers, e Mihay Csilkszentmihalyi, da Universidade de Claremont, concluem que a maioria dos critérios de dependência química aplica-se a pessoas que assistem muito à TV. O artigo também afirma, entre outras coisas, que nos países desenvolvidos as pessoas passam em média de três a quatro horas por dia diante da telinha. Questionamo-nos se a TV está deixando seu público dependente não só dos estímulos eletrônicos, mas da ausência de ideias.

1.5) Psicologia da mídia

“Não há dúvida de que a mídia e a psicologia fizeram grandes contribuições para a nossa sociedade no século passado. Assim nasceu a psicologia da mídia, ramo da psicologia que se concentra na interação do comportamento humano e mídia e tecnologia; inclui todas as formas de comunicação mediada e comportamentos relacionados à tecnologia da mídia, como o uso, design, impacto e compartilhamento de comportamentos. Este ramo é um campo de estudo relativamente novo devido ao avanço da tecnologia” (Wikipedia.org). Compreender o relacionamento – tanto dinâmico quanto interativo – entre mídia e sociedade é fundamental para a sua futura evolução e sua influência positiva em nossas vidas.

“À medida que os psicólogos da mídia continuam a estudar o fenômeno das implicações da persuasão e a influência da mídia em nossa interpretação da informação, em nosso desenvolvimento e nossas diferenças, começaremos a entender melhor como usar e desenvolver tecnologias para se comunicar, conectar, interagir, discutir e fazer novas descobertas. A cada mudança no campo da psicologia da mídia, há uma atualização para um aplicativo móvel. Os psicólogos não devem apenas olhar para o trabalho que foi realizado, mas também devem olhar para o trabalho que precisa ser feito no futuro” (Careers in Psychology – Associação Americana de Psicologia).

Arte: Reprodução/ Divulgação

Basicamente, os profissionais neste campo estudam como as pessoas interagem com a mídia e entre elas devido à sua influência. Este campo de estudo pode ser usado para determinar como a mídia nos afeta e como percebemos certos elementos midiáticos. Também pode ser usado para determinar o que pode ser alterado na mídia para nos dar uma experiência mais agradável ou apropriada. A história da psicologia da mídia realmente começou na década de 1950, quando a televisão se tornou popular. No entanto, os psicólogos estavam mais focados nas crianças e na televisão na época. A pesquisa começou a ser conduzida para determinar como a visualização da televisão afetou as habilidades de leitura de uma criança. Mais tarde, os pesquisadores também começaram a estudar se as crianças que consumiam conteúdo violento eram mais propensas a imitar a violência ou a exibir comportamentos antissociais.

Em 1987, foi criada a Divisão 46 – Divisão de Psicologia de Mídia – da Associação Americana de Psicologia. Este campo ganhou maior visibilidade nas semanas que se sucederam após o ataque às Torres Gêmeas, em 2001. Devido à natureza violenta do ocorrido e ao aumento das portagens de mortes, as pessoas ao redor do mundo foram levadas à sua televisão nos dias seguintes. Os psicólogos da mídia, por outro lado, tomaram isso como uma oportunidade para estudar a violência na mídia e como isso afetou as pessoas.

Hoje, no entanto, o campo da mídia digital está crescendo a uma taxa exponencial, e o campo da psicologia da mídia está crescendo bem junto com ele. Os psicólogos da mídia agora não se preocupam apenas com a televisão e seus efeitos, mas também com todos os novos formulários de mídia que surgiram nos últimos anos, como a internet e a tecnologia de telefonia celular.

1.5.1) Por que precisamos de psicologia de mídia?

A sociedade de hoje está passando mais tempo na frente de televisores e navegar na internet, em parte devido à maior disponibilidade desses tipos de tecnologia. Algo que proeminente é obrigado a nos afetar. A questão que os psicólogos estão tentando responder é exatamente como isso nos afeta. Alguns tipos de mídia – como noticiários relatando eventos violentos – muitas vezes afetam a maioria de nós negativamente. O campo da psicologia da mídia pode ser usado para ajudar a diminuir o impacto negativo de alguns tipos de mídia, tornando-o menos estressante. Esses estudos também podem ser usados para ajudar a criar experiências de mídia mais positivas, como programas de televisão agradáveis.

A maioria dos psicólogos da mídia são pesquisadores. Eles podem observar indivíduos e entrevistá-los sobre suas reações a certos tipos de mídia. A pesquisa de psicólogos dos meios de comunicação pode ser conduzida em qualquer número de áreas. Por exemplo, eles podem estudar como as pessoas percebem certos tipos de mídia, ou porque algumas pessoas são mais afetadas pela mídia do que outras. Os resultados desta pesquisa podem então ser compilados em relatórios, tanto para fins informativos como para fins práticos. Depois de realizar pesquisas originais ou estudar pesquisas passadas, o psicólogo da mídia pode então aplicar suas descobertas para situações do mundo real. Por exemplo, eles podem ser chamados a descobrir por que algumas pessoas são mais propensas a assistir a certos programas de televisão. Eles podem então oferecer soluções práticas para aumentar os espectadores desses shows.

Foto: Reprodução/ Divulgação

Os psicólogos da mídia podem ser chamados a ajudar a elaborar um plano para tornar certos tipos de mídia mais agradáveis e amigáveis. Esses profissionais também podem atuar como consultores de marketing, sendo responsáveis por tentar descobrir como tornar as pessoas mais sensíveis às propagandas na mídia. Isso pode ser feito de várias maneiras, desde a renovação completa de uma propaganda até mudanças mais sutis, como diferentes músicas de fundo ou cores. Certos tipos de mídia também podem ser usados como ferramentas educacionais, e os psicólogos da mídia podem ser convidados a tornar essas ferramentas mais eficazes. Um dos lugares mais comuns que os psicólogos da mídia pode ser encontrado é em empresas de radiodifusão, como televisão, rádio e estúdios de cinema.

O setor de educação também tem necessidade de psicólogos de mídia. Eles podem trabalhar com escolas e universidades, por exemplo, ajudando a criar materiais educacionais efetivos, como DVDs e softwares interativos. Médicos e hospitais também podem pedir aos psicólogos da mídia que ajudem a criar materiais eficazes de autoajuda e mídia interativa. Isso pode incluir coisas como ajuda para a cessação do tabagismo e vídeos de instruções para perda de peso (Careers in Psychology – Associação Americana de Psicologia).

1.6) Possíveis motivações

As notícias se concentram em coisas negativas, porque envolvem nosso reflexo de medo e, portanto, geralmente são mais atraentes, de acordo com Tom Stafford, professor de psicologia e ciência cognitiva da Universidade de Sheffield. “Isso sugere que há algo que vale a pena se preocupar – algo que pode significar que devemos mudar de rumo ou reagir de alguma maneira”, disse ele. “É por isso que estamos atentos às más notícias, significa que as coisas não estão indo bem, então podemos ter que agir”. Mas muitas más notícias deixam o consumidor com “uma escolha entre vigilância perpétua (e ansiedade), ou sintonizando”, acrescentou Stafford.

Seán Dagan Wood, editor da revista Positive News, acredita que o pêndulo se afastou muito para as más notícias porque a mídia presume que haverá uma audiência para isso automaticamente. “O foco da indústria em más notícias é muitas vezes bem-intencionado, decorrente de um importante compromisso de ser o cão de guarda da sociedade”, afirmou. “No entanto, para a mídia como um todo, essa mentalidade foi muito longe. “Um fator importante no que está impulsionando o viés de notícias ruins é que tendemos a prestar atenção à ameaças e informações alarmantes, e os meios de comunicação capitalizam isso”. E acrescentou: “É o grande elefante na redação: as pessoas estão com a negatividade da mídia”.

As pessoas ainda se recordam de más notícias, como mostram os números dos sites de notícias internacionais, mas há sinais encorajadores de um apetite por um jornalismo construtivo ou focado em soluções. Pesquisas do Dr. Denise Baden, professor associado da Southampton Business School, da Universidade de Southampton, apontam que quanto mais negativamente as pessoas se sentem depois de consumir más notícias, menos provável é que façam uma opinião ou tomem medidas para melhorar o mundo ao seu redor. Diante dessa demanda, segundo o jornal britânico The Guardian, estão sendo promovidas ações pelo consumo de jornalismo construtivo na América do Norte, estimulando a captação de recursos financeiros para a criação de organizações voltadas à produção e distribuição de notícias positivas. Uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo ou vaquinha) da Positive News em 2015, por exemplo, captou 263 mil libras esterlinas em 30 dias, de 1,5 mil pessoas em 33 países.

Foto: Bank Phrom/ Unsplash

“As tentativas anteriores de provedores de notícias para oferecer uma cobertura mais positiva vacilaram devido a uma tendência de tratar essas histórias como puramente leves ou contos de heróis”, disse Wood, que acredita que mais rigor jornalístico está sendo aplicado nesta área. Jessica Prois, editora executiva dos sites Good News e Impact, justifica: “Dentro da área de mídia tradicional, escrever sobre soluções e boas notícias realmente requer padrões excepcionalmente elevados, com relatórios, pesquisas e escritas extremamente sólidos, uma vez que os leitores são céticos e estamos trabalhando contra uma narrativa de longa data de que o mundo pode ser um lugar terrível e a mídia deve cobri-lo como tal”. E continua: “Nós temos a responsabilidade de relatar a verdade e não podemos reduzir a realidade das notícias, mas acho que também estamos ajudando a normalizar a ideia de que as pessoas geralmente são boas no mundo. Porque elas são”. (The Guardian, 2016).

Em meio ao clima atual de más notícias, um punhado de publicações surgiu para fornecer a leitores cansados alternativas abertamente otimistas. Isso inclui sites como Good News Network, Positive News e o distribuidor de vídeo viral conhecido como Upworthy. Os principais veículos midiáticos também estão se envolvendo: o ABC tem sua própria seção “Boa Notícia”; O New York Times tem uma coluna semanal chamada “Fixes”, que “explora soluções para grandes problemas sociais” e, no final de 2014, o The Washington Post anunciou planos para oferecer um boletim informativo intitulado “The Optimist”, uma coleção de histórias e contos de pessoas bem-sucedidas. Uma crença subjacente aqui é que as histórias construtivas e otimistas do mundo podem encorajar os leitores a se envolverem com sua comunidade em vez de se aprofundarem no seu sofá, lamentando o futuro apocalipse.

1.7) A cultura do medo

“A mídia tem um papel importante no campo político, social e econômico de toda sociedade. Através desse mecanismo essa instituição incute na população uma consciência, uma cultura, uma forma de agir e de pensar. O crime desperta curiosidade na população por apresentar uma ameaça. A mídia atua explorando essa fragilidade humana e estimulando a sensação de insegurança. A televisão tornou-se um fenômeno em massa, assim como, a alta taxa de criminalidade e, com isto, também cresce a sensação de medo e insegurança em toda população” (Justificando, Carta Capital, dezembro de 2014).

Neste artigo, os autores Raquel do Rosário¹ e Diego Bayer² apontam que, por nos encontrarmos em uma crise de credibilidade política no Brasil, os telejornais procuram outras categorias informativas para traduzir o interesse da sociedade — geralmente notícias violentas. Assim, a curiosidade pela narração do crime e suas possíveis consequências acabam por ser uma das causas de uma nova cultura de violência, em que essa aparece como um fato normal, corriqueiro, que faz parte do cotidiano. “Não há com um grau de certeza a confirmação de que os meios de comunicação influenciem na opinião pública, o fato é que existe uma influência mútua entre o discurso sobre o crime — atos violentos — e o imaginário que a sociedade tem dele e entre as notícias e o medo do delito. Com isso, pode-se sustentar que existe uma relação sólida entre as ondas de informação e a sensação de insegurança”, explicam.

1 Formada em Letras pela Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE); Mestre em Ciências da
Educação pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) – Lisboa / Portugal; Graduanda do Curso de Direito pelo Centro Universitário – Católica de Santa Catarina. 2 Advogado criminalista, doutorando em Direito Penal, professor de Penal e Processo Penal da Católica de Santa Catarina.

 

Segundo o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman (2008, p. 8), medo é o nome que damos a nossa incerteza: nossa ignorância da ameaça e do que deve ser feito. Vivemos numa era onde o medo é sentimento conhecido de toda criatura viva. Boldt (2013, p.96) assinala: “Tema central do século XXI, o medo se tornou base de aceitação popular de medidas repressivas penais inconstitucionais, uma vez que a sensação do medo possibilita a justificação de práticas contrárias aos direitos e liberdades individuais, desde que mitiguem as causas do próprio medo”. Para Bauman (2008, p.18), riscos são perigos calculáveis. Uma vez definidos dessa maneira, são o que há de mais próximo da certeza. Ou seja, o futuro é nebuloso e as pessoas não deveriam se preocupar em vencer ou não qualquer situação de risco porque, talvez, nunca se chegue a enfrentá-la. Mas, deve prever e tentar evitar oferecendo a si mesmo um grau de confiança e segurança, ainda que sem garantia de sucesso.

Medo Líquido, obra de Zygmunt Bauman. Foto: Reprodução/ Divulgação

“A mídia pode ser considerada aqui uma causadora da proliferação do medo na sociedade, pois o medo deixou de relacionar-se a estórias de contos e mitos, da imaginação durante reuniões de família, para ser um aglomerado de imagens e informações que a televisão transmite todos os dias dentro de cada lar e para todas as famílias. A sociedade deixou de imaginar os contos para viver na realidade concreta as situações que são transmitidas através dos telejornais e programas de entretenimento. […] É inegável que vivemos em uma sociedade violenta, com altos índices de barbáries, mas o problema não está na prevenção de possíveis ameaças, mas em considerar que tudo e todos possam ser ameaçadores. […] O sentimento de insegurança não deriva tanto da carência de proteção, mas, sobretudo, da falta de clareza dos fatos. Nessa situação difunde-se uma ignorância de que a ameaça paira sobre as pessoas comuns e do que deve ser feito diante da incerteza ou do medo. A consequência mais importante é uma crise de confiança na vida, uma vez que, o mal pode estar em qualquer lugar e que todos podem estar, de alguma forma, a seu serviço, gerando uma desconfiança de uns com os outros” (Justificando, Carta Capital, dezembro de 2014).

Nos pressupostos teóricos do artigo citado acima, Schecaira (apud BAYER, 2013) entende que a mídia é uma fábrica ideológica condicionadora, pois não hesita em alterar a realidade dos fatos criando um processo permanente de indução criminalizante. Assim, os meios de comunicação desvirtuam o senso comum através da dominação e manipulação popular, através de informações que, nem sempre, são totalmente verdadeiras. Com isso, propagando o medo do criminoso (identificado como pobre), os meios de comunicação aprofundam as desigualdades e exclusão dessa parcela da sociedade, aumentando as intolerâncias e os preconceitos. Utiliza-se do medo como estratégia de controle, criminalização e brutalização dos pobres, de forma que seja legitimo as demandas de pedidos por segurança, tudo em virtude do espetáculo penal criado pela imprensa. […] Hoje, vivemos em constante situação de emergência e deixamos de perguntar pelo simples fato de estar provada a barbaridade dos outros. A partir daí, muros são construídos para separar a sociedade. Há muros que separam nações entre pobres e ricos, mas não há muros que separam os que têm medo dos que não têm (COUTO, Mia, 2011). Diante da propagação dessa política, os cidadãos são colocados à frente de questões criminais que parecem nunca se resolver provocando uma sensação de intranquilidade e medo. Esse último, por sua vez, é agravado pela sensação de vulnerabilidade e de impossibilidade de defesa.

Arte: Reprodução/ Divulgação

Ainda segundo a obra anteriormente mencionada, isso se dá através do que o autor Felipe da Silveira (2013) chama de “cultura do medo”, ou seja, o que tem levado as pessoas a intensificarem suas próprias medidas visando uma suposta diminuição de vulnerabilidade, como a construção de muros e barreiras, assim como a se isolarem dentro de suas próprias casas, evitando sair a eventos e espaços públicos por medo da violência, o que configura uma mudança radical de comportamento, algo que beira a paranoia. Esta forma de isolamento dos conflitos ocasiona uma espécie de divisão social, onde as pessoa economicamente privilegiadas passam a ocupar bairros considerados “nobres” e condomínios vigiados continuamente, restando para a camada mais pobre da população, territórios completamente negligenciados pelo Estado, locais em que a “elite” busca o distanciamento, diz Silveira. E complementa (2013, p. 300): “O homem enfrenta grandes dificuldades em conseguir ver o outro como um semelhante e não como um concorrente a ser eliminado. Toda essa realidade que se forma na ‘cultura do medo’ acaba por contribuir para o reforço dos preconceitos na esteira da ignorância e da insegurança. Com isso, cria-se a ‘sociedade do medo’ que, além de cruel e preconceituosa, passa a ser ignorante e submissa a tudo que lhe é apresentado como verdade absoluta”.

O coronel César Vinícius Kogut e Wânia Rezende Silva, doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, expõem que o medo é fenômeno de paralisação do senso normal da vida, altera relações de formas e espaços, traz à tona uma imagem duvidosa, reflete insegurança, tristeza e dá noção de fragilidade. “Por isso, uma das missões fundamentais do Estado deveria ser realizar ações para minimizar problemas e reduzir o medo proporcionando à população uma melhor qualidade de vida, libertando os indivíduos desse sentimento para que vivam em segurança. Saber que este mundo é assustador não significa viver com medo. Nossa vida está longe de ser livre do medo, assim como, livre de ser livre de perigos e ameaças, porém, não podemos permitir que o que vimos na TV influencie nossa vida a ponto de […] permitir que isso tome conta de nosso ser e do que somos” (Justificando, Carta Capital, dezembro de 2014).

1.8) O viés da negatividade das notícias atuais

Um estudo recente do centro de pesquisa norte-americano Pew Research Center for The People and the Press sintetiza 165 pesquisas nacionais separadas e descobre que as preferências de notícias americanas permaneceram “surpreendentemente estáticas” nos últimos vinte anos. O autor do estudo Michael J. Robinson relata, sem surpresa, que a guerra e o terrorismo sempre foram classificados no topo da pilha desde 1986, onde o estudo começa. Em contraste, a notícia monetária é a única categoria que cresceu notavelmente em popularidade com o tempo. Crime, saúde e política têm sido consistentemente classificados como categorias de interesse de nível médio. Ciência e tecnologia, notícias estrangeiras que não estão diretamente relacionadas com os EUA, e as notícias de tabloides e entretenimento têm sido consistentemente classificadas como as mais baixas do público.

Robinson descobriu que “Polarizar questões sociais envolvendo família, sexualidade, patriotismo e Deus geram os mais altos níveis de atenção”, e o escândalo de celebridades é o mais baixo entre todas as preferências de notícias. Escrevendo para The Nation, o historiador e jornalista norte-americano Eric Alterman, argumenta que a falta de interesse neste assunto é a conclusão “mais chocante” do estudo. No entanto, o que é verdadeiramente fascinante é a explicação para essa contradição entre interesse e cobertura: “As menores mudanças […] podem fazer com que as organizações de notícias alterem substancialmente o foco de suas novidades”, disse Robinson, e muitas vezes em direção a “um denominador comum mais baixo”. Robinson implica que, em uma escala nacional, mudanças na cobertura tendem a moldar o interesse público ao invés de vice-versa. Se assim for, os jornalistas devem ser especialmente conscientes da sua influência sobre não apenas opiniões sobre as notícias, mas também sobre o que é considerado novidade (Revista Psychology Today, 2014).

A publicação mencionada anteriormente mostra que o correspondente de economia da NewHour, Paul Solmon, fez uma peça sobre o efeito em cascata que o pessimismo gera no consumidor, concluindo que estamos em um estado de “desamparo aprendido”. “Na pior das hipóteses, as más notícias contínuas podem até estimular um estado de depressão e as pessoas que se concentram em todas as más notícias funcionam emocionalmente e tornam-se muito mais propensas a tomar decisões imprudentes, como vender todos os seus investimentos com uma enorme perda ou deter seus gastos dos consumidores inteiramente. Mesmo as pessoas que não assistem televisão ou leem jornais estão sendo atingidas pela negatividade através de redes sociais e conversas informais”.

A questão é: a mídia é negativa? De acordo com a revista norte-americana Psychology Today, estudos de mídia mostram que as más notícias superam as boas notícias até dezessete relatórios de notícias negativas para cada um bom relatório de notícias. Por quê? A resposta pode estar no trabalho de psicólogos evolucionistas e neurocientistas. “Os seres humanos procuram notícias de eventos dramáticos e negativos. Esses especialistas dizem que nossos cérebros evoluíram em um ambiente de caçador-coletor onde qualquer coisa nova ou dramática deveria ser atendida imediatamente para a sobrevivência. Então, enquanto não nos defendemos mais contra os tigres de dentes-de-sabre, nossos cérebros não cessam. Muitos estudos mostraram que nos preocupamos mais com a ameaça de coisas ruins do que com a perspectiva de coisas boas. Nossos trincos de cérebro negativos são muito mais sensíveis do que nossos disparadores positivos. Nós tendemos a ter mais medo do que felicidade. E cada vez que experimentamos medo, ativamos nossos hormônios do estresse [cortisol]” (Revista Psychology Today, 2014).

Foto: Reprodução/ Divulgação

Outra explicação vem da teoria da probabilidade. Em essência, coisas negativas e incomuns acontecem o tempo todo no mundo. Em seu livro, Innumeracy, John Allen Paulos explica que, se a notícia é sobre um pequeno bairro de 500 ou 5 mil habitantes, a possibilidade de que algo incomum tenha acontecido é baixo. “As coisas incomuns não acontecem muitas vezes com as mesmas pessoas. É por isso que notícias muito locais como boletins informativos do bairro tendem a ter menos notícias ruins. Mas em uma cidade grande de um milhão de habitantes, incidentes dramáticos e negativos ocorrem o tempo todo. A maioria das pessoas assiste a mídia nacional ou mundial onde os relatórios de notícias chegam de grandes cidades em grande escala, de modo que a prevalência de histórias negativas aumenta. Adicione o tamanho da comunicação de redes sociais, e expandimos notícias geometricamente ruins. Portanto, das perspectivas evolutivas e neurocientíficas e de probabilidade, somos confiantes para procurar o dramático e o negativo, e quando a encontramos, compartilhamos” (Revista Psychology Today, 2014).

Loretta Garziano Breuning, autora de Meet Your Happy Chemicals, afirma que a “ansiedade profunda” resulta de seguir as notícias diárias devido ao foco predominante na negatividade. Ela argumenta que “as notícias apelam à busca de suas mentes por informações relevantes para a sobrevivência, mas não ‘necessariamente atendem a essa necessidade’. Isso desperdiça sua atenção em sinais de ameaças generalizadas nas quais você realmente não pode agir”.

1.9) Como o cérebro reage às notícias ruins

De acordo com o psicólogo britânico Dr. Graham Davey, a maneira como as notícias negativas afetam seu humor também pode ter um impacto maior sobre como você interpreta e interage com o mundo ao seu redor. Se isso o torna mais ansioso ou triste, por exemplo, você pode subconscientemente tornar-se mais sintonizado com eventos negativos ou ameaçadores, e você provavelmente poderá ver eventos ambíguos ou neutros como negativos. Em nível neurológico, quando somos confrontados com imagens de violência, sabemos que imagens ou vídeos que retratam violência são categoricamente diferentes da violência real – então não processamos a entrada como estímulos ameaçadores. No entanto, internalizamos os estímulos negativos, que podem afetar o humor e fazer com que se sinta mais negativamente em relação ao ambiente de forma mais ampla (The Huffpost, 2015).

Um estudo publicado pelo jornal norte-americano Sage também descobriu que ser frequentemente exposto a imagens de violência gráficas e não censuradas é emocionalmente angustiante para muitos jornalistas que atuam nas salas de redação. Os jornalistas que foram regularmente expostos a imagens de vídeo violentas obtiveram maiores resultados nos índices de PTSD (post traumatic stress, ou estresse pós-traumático, na tradução) incluindo reexperimentação, evasão e ansiedade geral – além do aumento do consumo de álcool, depressão e somatização (sinais físicos de angústia no corpo).

Por outro lado, estudo aponta que área do cérebro é responsável por ignorar notícias ruins. Segundo a pesquisadora Tali Sharot e colegas da University College de Londres, da Universidade da Pensilânia, nos EUA, da Universidade Livre de Berlim e da Universidade Humboldt de Berlim, na Alemanha, uma área chamada “giro frontal inferior” (IFG, na sigla em inglês), localizada na parte da frente da cabeça, pode estar envolvida na assimilação de coisas boas e na rejeição das ruins (Ciência e Saúde, G1, Globo, 2012).

Arte: Reprodução/ Divulgação

“O que é claro a partir desta pesquisa é que são necessárias notícias mais positivas para superar a violência e a destruição que estamos expostos a todos os dias. A violência diminuiu, e a qualidade de vida melhorou para milhões de pessoas. O jornalismo deve refletir essas verdades” (Huffpost, 2015). Como disse a fundadora da Positive News, Sean Dagan Wood, em uma recente conversa da TED, “uma forma mais positiva de jornalismo não só irá beneficiar o nosso bem-estar, irá envolver-nos na sociedade, e isso ajudará a catalisar possíveis soluções para os problemas que enfrentamos”.

2) Contra-argumento

Os sorrisos são contagiosos, especialmente nas mídias sociais. Psicólogos e neurocientistas descobriram que a boa notícia se espalha mais rapidamente. “[…] quando você compartilha uma história com seus amigos e colegas, você se importa muito com a forma como eles reagem”, diz Jonah Berger. “De acordo com psicólogos positivos, quando adquirimos novos hábitos, nossos cérebros adquirem “neurônios espelho” e desenvolvem uma perspectiva positiva que pode se espalhar para outras pessoas como um vírus. […] É sobre ser capaz de reprogramar nossos cérebros [plasticidade cerebral]. Para aplicar esta psicologia positiva e conhecimento de pesquisa do cérebro para nossas atitudes e comportamentos em relação às nossas condições econômicas atuais, podemos incentivar nossos atuadores de notícias a apresentar um ponto de vista equilibrado e multidimensional” (Revista Psychology Today, 2014).

3) Conclusão

A partir deste e de outros estudos citados ao longo deste projeto de pesquisa, compreende-se que eventos negativos ganham alto repercussão na mídia devido ao interesse público, ao caráter de comoção e, ao critério de noticiabilidade e relevância de pauta definidos no meio jornalístico. Assim, sugere-se que há uma tendência em persuadir o interesse do público e vice-versa, concluindo-se que esta esfera noticiosa não caracteriza a totalidade do mundo real, mas parte dela – quanto maior for a abrangência deste canal midiático, a proliferação de informações negativas tende a aumentar.

Todavia, a frequência massiva de conteúdos ligados a episódios trágicos sustenta um caráter de “alarme generalizado e de insegurança”, o que desencadeia reações físicas e emocionais no indivíduo, como depressão, estresse, isolamento, individualismo, entre outras. Diante de tal constatação, profissionais da psicologia recomendam cautela no consumo regular de más notícias. A partir daí, sucede um movimento por parte do público pela criação de veículos midiáticos voltados à produção de conteúdos positivos. Esses, têm reação contrária na psique: desenvolvem o espírito de coletividade, socialização, reforçam a esperança na humanidade e suscitam bons pensamentos que, consequentemente, resultam em ações equivalentes.

Foto: Reprodução/ Divulgação

REFERÊNCIAS

Revista Pacific Standard (https://psmag.com/social-justice/bad-news-is-good-news).

Justificando, Carta Capital (http://justificando.cartacapital.com.br/2014/12/12/a-formacaode-uma-sociedade-do-medo-atraves-da-influencia-da-midia/).

Careers in Psychology – Associação Americana de Psicologia (https://careersinpsychology.org/impact-media/).

Revista Psychology Today (https://www.psychologytoday.com/blog/wiredsuccess/201411/why-we-love-bad-news).

BORGES, Michelson. Nos Bastidores da Mídia. Editora: Casa Publicadora Brasileira, São
Paulo, 2005.

BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2006.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para Consumo. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2008.

SILVEIRA, Felipe Lazzari da. A cultura do medo e sua contribuição para a proliferação da criminalidade. 2º Congresso Internacional de Direito e Contemporaneidade. Santa Maria / RS UFSM – Universidade Federal de Santa Maria, 2013.

Ciência e Saúde, G1, Globo. (http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2012/09/areado-cerebro-e-responsavel-por-ignorar-noticias-ruins-aponta-estudo.html).

LSE United States Centre (http://blogs.lse.ac.uk/usappblog/2015/05/27/why-do-we-pay-oreattention-to-negative-news-than-to-positive-news/).

BBC (http://www.bbc.com/future/story/20140728-why-is-all-the-news-bad).

The Guardian (https://www.theguardian.com/world/2016/aug/01/and-now-for-good-newswhy-media-taking-positive-outlook).

The Huffington Post (http://www.huffpostbrasil.com/entry/violent-media-anxiety_n_6671732).

 

Foto de capa: Roman Kraft/ Unsplash

Fonte: Trabalho desenvolvido por Gabriel Rodrigues (autor deste blog) para a disciplina de Metodologia da Pesquisa em Comunicação do Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC –  2017/2. Professor: Bruno Kegler.

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

Saiba mais

Deixe um comentário