Muito além do que a TV mostra

Análise do filme ‘Muito Além do Jardim’ e a influência da mídia no comportamento social

Ao ligar a televisão, você reflete e questiona o que está sendo dito ou aceita tudo como verdade absoluta? Tal questão é levantada subjetivamente no filme de comédia dramática “Muito Além do Jardim” (1979), de Hal Ashby, que conta a história do jardineiro Chance (Peter Sellers), um homem que passa toda a sua vida cuidando de um jardim e vendo televisão, seu único contato com o mundo externo. Ele nunca entrou em um carro, não sabe ler ou escrever, não tem carteira de identidade e possui apenas um conhecimento restrito de botânica. Quando seu patrão morre, o homem é obrigado a abandonar a mansão em que sempre viveu. Um dia, acidentalmente, Chance é atropelado pelo automóvel de Benjamin Rand (Melvyn Douglas), um senhor magnata que se torna seu amigo. Paralelamente a saúde de Benjamin fica comprometida e Eve Rand (Shirley MacLaine), sua esposa, se apaixona por Chance. Uma das cenas mais emblemáticas do filme é quando o protagonista é surpreendido por um grupo de jovens delinquentes e tenta desligá-los com um controle remoto.

“Muito Além do Jardim” trata sobre como a TV é capaz de moldar a percepção do mundo real, fazendo a analogia entre o novo universo que Chance está descobrindo e o universo a que ele pertence. Foto: Reprodução/ Pinterest

Cheio de metáforas e analogias, este longa-metragem faz referência à Teoria Crítica, publicada pelos filósofos e sociólogos alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer, em 1947. Esta tese questiona a alienação, o conformismo e a passividade da sociedade frente aos meios de comunicação, a exemplo do protagonista Chance, que age de acordo com os conhecimentos adquiridos com a televisão. Ingênuo, o jardineiro se aventura em um mundo até então desconhecido além do jardim e da tela da TV, encarando a realidade, muitas vezes distorcida ou omitida pelos meios de comunicação em benefício próprio.

Tendo em vista essa realidade, nós, enquanto consumidores de conteúdo veiculado pela mídia, devemos manter uma postura crítica sobre tudo o que nos é apresentado, como também questionar o que é dito como “falso” ou “verídico” para não sermos coagidos e usados como agentes de manobra de manipulação. No momento em que o controle remoto ou o simples clicar de um botão nos faz ingerir ideias formadas e falso moralismo, tudo isso passa despercebido bem em frente aos nossos olhos, passando a sermos meros propagadores de comportamentos e filosofias impostas por terceiros. Por isso se faz necessário buscar conhecimento além do meio a que fomos ensinados ou estamos fadados à pertencer, para que possamos formular nossas próprias ideias com base em diferentes posicionamentos. Construir argumentos, refletir, debater e propor discussões, todos esses métodos visam a nossa integração como cidadãos “pensantes” e não apenas “influenciados sem opinião própria” dentro da sociedade e da indústria cultural.

* O termo indústria cultural, cunhado por Theodor Adorno e Max Horkheimer, designa a crítica à produção de bens simbólicos em escala industrial, constituindo-se em denúncia ao processo de mercantilização dos artefatos culturais. Este processo acarretaria o rebaixamento da “qualidade” cultural, contribuindo para a alienação, conformismo político e passividade mental da sociedade.

Foto de capa: Pawel Kadysz/ Unsplash

Fonte: Artigo produzido para a disciplina de Teoria da Comunicação I/2016, ministrada pelo professor Bruno Kegler em Jornalismo – Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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