A mídia e a manipulação da informação

Análise do filme A Montanha dos Sete Abutres a partir da Teoria do Agendamento

O filme de drama/noir “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), no original “Ace in the Hole”, é o pano de fundo da história central. Seu protagonista Charles Tatum (Kirk Douglas) é reminiscente de uma corporação jornalística que persegue histórias a qualquer custo, seja violando a lei, alterando a verdade ou subornando a polícia. Valendo-se de uma aparente confiança e ética profissional, Tatum demonstra um perfil abusivo, manipulador, cínico, corrupto, frio e ambicioso. O que, de certa forma, pode dizer um pouco sobre a natureza de sua própria coleta de notícias.

A Montanha dos Sete Abutres retrata o fenômeno do circo da mídia (espetacularização) e permeia a narrativa com lições profundas para jornalistas e seus leitores. Em sua trajetória, Tatum fora um repórter demitido de 11 jornais e está em busca de um emprego em Albuquerque, no Novo México. Rumo à cobertura de uma reportagem sobre cascavéis que, para ele, aparenta não ter o menor atrativo, Tatum descobre que Leo Minosa (Richard Benedict) ficou preso em uma mina quando procurava por “relíquias indígenas”.  Para costurar a narrativa, Tatum suborna o xerife com uma cobertura favorável e prolonga a velocidade do resgate, para que Leo fique preso por seis dias e não apenas por algumas horas. Todos lucram com o acidente, menos a vítima.

Através desta obra, o diretor Billy Wilder mostra, de forma caricaturada e até sensacionalista, como o comércio de informações às vezes funciona. Um eufemismo para esse tipo de comércio ou, mais pejorativamente, o acesso ao jornalismo. A linha tênue entre servir seus leitores e servir suas fontes. Como jornalistas, somos ambos contadores da verdade e contadores de histórias e há uma tensão inerente entre esses dois papéis. A Montanha dos Sete Abutres é sobre quando a notícia se torna mais importante que a verdade – a tentação de sombrear os fatos ou de montá-los, quando nos tornamos participantes ativos e não meros observadores neutros.

Contudo, como fora observado por alguns críticos contemporâneos a respeito do filme, os negócios envolvidos raramente são explícitos e completamente errados, a exemplo da nota de revisão divulgada no jornal New York Times na década de 50: “o que fora mostrado não representa apenas uma distorção da prática jornalística, mas também uma visão imaginativa e dramática acerca desse tema”. No entanto, o fato interessante é que o filme é baseado na história real de Floyd Collins, um explorador que ficou preso em uma caverna de Kentucky (EUA), em 1925, desencadeando mais de duas semanas de cobertura intensiva e que trouxe hordas de turistas ao redor do local.

O filme ainda coloca em xeque a expressão do “quarto poder” – a verdade e a justiça, o cão de guarda dos poderosos, a voz dos oprimidos. Subjacente a essa ideia, está a identidade do jornalismo: a história pela história e o fascínio popular pelo descalabro: mortes, acidentes, entre outros. Em uma das falas do protagonista com um aprendiz de repórter, isso se traduz: “Eu não fui a nenhuma faculdade, mas sei o que faz uma boa notícia. Porque antes de eu ter trabalhado em um papel eu os vendi em uma esquina. Você sabe a primeira coisa que eu descobri? Má notícia vende melhor. Porque boas notícias não são novidades”. Por fim, o filme mostra um público subitamente consciente e envergonhado de sua própria cumplicidade no caso. Fenômeno esse que suscita a Teoria do Agendamento, formulada por Maxwell McCombs e Donald Shaw na década de 1970.

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Essa hipótese propõe a ideia de que os consumidores de notícias tendem a priorizar os assuntos veiculados com maior destaque na cobertura jornalística. De acordo com o Agenda-setting, as notícias veiculadas na imprensa determinam ou fazem com que o público reflita e dialogue sobre um determinado assunto e não sobre outro(s). A teoria se preocupa com a agenda dos meios de comunicação e a agenda da sociedade, como são colocadas as notícias e de que forma essas ideias e opiniões tentam persuadir o público. Também explica a correspondência entre a intensidade de cobertura de um fato pela mídia e a relevância desse fato para o público.

Acredita-se que o agendamento ocorre porque a imprensa deva ser seletiva ao noticiar os fatos. Assim, os profissionais da mídia atuam como “gatekeepers” (porteiros) da informação, sendo responsáveis por escolher o que noticiar e o que ignorar de acordo com o valor-notícia, linha editorial e outros atributos. Dessa forma, o que o público sabe e com o que ele dá importância em determinado momento se deve, em grande parte, a um produto do “gatekeeping midiático” (processo de seleção do conteúdo e controle da informação exercido pela mídia através de um filtro).

Conforme a teoria, a função de agendamento é um processo de três níveis: 1) agenda midiática: assuntos discutidos na mídia; 2) agenda pública ou da sociedade civil: questões discutidas e relevantes para o público; 3) agenda de políticas públicas: questões que gestores públicos consideram importantes. Nesse contexto, emerge o conceito da causalidade: é a agenda midiática que pauta a agenda social, ou vice-versa? Os pesquisadores Iyengar e Kinder associam essa questão a um estudo experimental no qual identificaram que o “priming” (consiste na clareza da apresentação e posição da notícia, atraindo a atenção do público para alguns aspectos da vida política em detrimento de outros) é um fator determinante para a decisão da feitura de uma matéria de jornal. No entanto, a dúvida de que se há influência da agenda público na agenda midiática segue em discussão.

Alguns mecanismos ajudam a compreender a construção da agenda pública, como exemplo os tipos de agendamento entre factual e temático. Segundo os autores Lycarião e Sampaio (2016), o factual se limita a um acontecimento, fato ou notícia específico, e o temático possui caráter abrangente. Em relação à dimensão temporal, existem três categorias: curto prazo, entre um e 14 dias, médio prazo, com meses de duração, e longo prazo, com duração de anos. Essas condições, portanto, influenciam diretamente as dinâmicas da construção da agenda pública. Mais além, se tratando de internet, a teoria da “Big data” (representa uma nova possibilidade de pesquisa operada por meio da filtragem de dados massivos) é tratada como uma variável possível à Teoria do Agendamento, pois expande as noções da própria teoria, de seus conceitos e de seus domínios de aplicação.

Em sua obra, Maxwell McCombs ainda fala do agendamento de atributos e o conceito de enquadramento do objeto pautado pela mídia. Conforme o autor, a convergência desses aspectos permite novos entendimentos sobre a influência dos atributos nas notícias, reafirmando o poder de influência da mídia nas atitudes e opiniões do público. Contudo, nem todo atributo gera um enquadramento interessante para a produção noticiosa, portanto, o papel do enquadramento, segundo McCombs, é organizar o pensamento, a narrativa e criar um padrão integrado. O que define os atributos que serão usados para o enquadramento midiático e a sua saliência. Assim, entende-se que alguns atributos têm mais possibilidade de serem incluídos na agenda da mídia do que outros. Essa ideia, de tal modo, auxilia a compreensão do filme citado anteriormente e de todo o processo midiático envolvido, desde a abordagem dada até a frequência e o modo que essa história é narrada. O público, visto pelo viés da narrativa, torna-se alvo de manipulação, embora de forma consciente ou inconsciente, determine ou seja condicionado a consumir e/ou conduzir a informação produzida pela indústria.

Foto de capa: Repórter Chuck Tatum (Kirk Douglas) em A Montanha dos Sete Abutres (Reprodução/ Paramount Pictures).

Atividade desenvolvida para a disciplina de Teoria do Jornalismo da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), ministrada pela professora Patricia Schuster. 

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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