Machismo mata: feminicídio aumenta no Brasil

Delegada discute violência contra a mulher e a cultura machista no país

Mais do que nunca as mulheres têm se unido contra o machismo lutando pela libertação das amarras machistas que lhes tolhem os direitos mínimos de liberdade e igualdade com relação aos direitos concedidos aos homens na sociedade, em casa e no ambiente de trabalho. Seja no mundo real ou virtual, muitas pessoas têm contribuído para o fim do machismo apontando casos de violação dos direitos das mulheres em todas as esferas e setores da sociedade.

FEMINICÍDIO, UMA REALIDADE

A violência contra a mulher não se faz presente só nos grandes centros urbanos e na internet, mas também nas cidades interioranas. Segundo a delegada de Polícia Civil Fabiane de Vargas Bittencourt, 36, sendo oito anos de profissão, Cachoeira do Sul (RS) tem apresentado números expressivos destes casos, que englobam crimes gravíssimos inclusive, como feminicídio (morte intencional de pessoas do sexo feminino, classificado como um crime hediondo e homicídio qualificado no Brasil). “No entanto, a grande cifra de registros desse tipo de violência não é uma realidade apenas da nossa cidade, mas de todo nosso país”, destaca.

O NÚMERO

Foram 138 representações por medidas protetivas no ano de 2017 até o mês passado em Cachoeira do Sul, segundo informação da Polícia Civil. Estes são os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher em que se pede tutela judicial por parte da vítima. “Mas o número de casos é bem maior que este (fica difícil contabilizar de forma ágil). Esse dado é referente aos casos em que as vítimas representaram por tutela judicial diante da gravidade dos mesmos”, frisa Fabiane.

Delegada Fabiane é instrutora da disciplina de Enfrentamento à Violência Doméstica da Força Nacional, onde estão sendo capacitados policiais do país inteiro para atuar nos moldes do novo Plano Nacional de Segurança Pública, que prevê o combate aos crimes ocorridos no âmbito doméstico e familiar contra as mulheres.

Foto: Reprodução/ Divulgação

A DESIGUALDADE DE GÊNERO

Conforme a delegada, a desigualdade entre homens e mulheres é histórica na nossa sociedade. “Tais diferenças vão do aspecto econômico, uma vez que comprovadamente mulheres recebem menos do que os homens para desenvolver o mesmo tipo de atividade, ao cultural, na medida em que mulheres e homens são vistos de maneira totalmente diferente socialmente quando praticam ações semelhantes”, enfatiza Fabiane, que cita como exemplo o homem que se relaciona com diversas parceiras, intitulado “garanhão”, enquanto a mulher é taxada como “prostituta”.
“Em razão dessa mentalidade que infelizmente acompanha a evolução social, as mulheres têm lutado para se libertar das ‘amarras’ que as tornam socialmente diferentes dos homens e, muitas vezes, as fazem vítimas de abusos e violência”, explica.

“Estudos na área indicam que após a superveniência da Lei Maria da Penha e de campanhas divulgando o tema as mulheres passaram a se sentir mais encorajadas em denunciar seus agressores, o que contribui para o aumento dos registros policiais, mas não necessariamente do número de delitos”. Fabiane Bittencourt . Foto: Reprodução/ Jornal do Povo

EMPODERAMENTO FEMININO

Mesmo que a questão relacionada à tutela de direitos caminhe de maneira lenta dentro da sociedade, Fabiane acredita que a evolução no que tange ao respeito à classe feminina é perceptível, uma vez que, atualmente, contamos com uma legislação que protege mulheres vítimas de violência (Lei Maria da Penha). “As mesmas têm se sentido mais encorajadas para denunciar abusos sofridos e pela efetiva responsabilização daqueles que violam seus direitos”, ressalta.

“Logo, acredito que nas gerações futuras as mulheres não serão mais consideradas inferiores aos homens e talvez possamos abrir mão das políticas afirmativas que buscam realizar esse nivelamento”, confia. Mas, para Fabiane, isso ainda deve levar certo tempo. “Demanda uma mudança cultural completa na nossa sociedade, que ainda tem preceitos machistas muito arreigados na sua essência”, justifica.

3 PERGUNTAS PARA FABIANE BITTENCOURT, delegada

1) POR QUE AS MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA AINDA TÊM MEDO DE FORMALIZAR A DENÚNCIA?

“Apesar de toda divulgação que tem se dado com relação aos direitos das mulheres e sobre a rígida penalização daqueles que violam os mesmos, muitas ainda têm medo de denunciar seus agressores, e isso se deve a vários fatores, principalmente em razão da dependência econômica das vítimas com relação aos autores dos abusos. Embora a Lei Maria da Penha traga em seu bojo a obrigação do Estado em criar programas de assistência à mulher em situação de violência, isso ainda não é uma realidade, e talvez seja a maior deficiência da referida lei, que impõe maior rigor na punibilidade de autores de crimes, mas não garante às vítimas apoio após a vivência criminosa”.

2) VOCÊ ACREDITA QUE ESTES CASOS EXPOSTOS NA MÍDIA ENVOLVENDO PESSOAS PÚBLICAS SERVEM DE EXEMPLO PARA QUE AS VÍTIMAS ESTEJAM CIENTES DE QUE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER É CRIME E QUE DEVE SER DENUNCIADA?

“Nos últimos dias acompanhamos pela imprensa diversos casos de violação de direitos das mulheres em que os autores sofreram reprimendas pelos atos praticados, sendo que a mídia teve papel fundamental nesse processo. Logo, entendo que os meios de comunicação são fontes importantíssimas na modificação cultural da sociedade, pois através deles casos abusivos e criminosos são levados a público e referendados como exemplo perante a sociedade, impondo freio à prática de atos semelhantes”.

3) QUAL É A SAÍDA PARA ACABAR COM A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER, O MACHISMO E A CULTURA DO ESTUPRO NO BRASIL?

“A saída para a diminuição dos casos de violência contra a mulher na nossa sociedade deve amparar-se em uma modificação cultural completa em que mulheres e homens sejam vistos como sujeitos idênticos de direitos, respeitadas as peculiaridades de cada sexo. E tal processo deve se dar com a reprimenda/punição efetiva daqueles que violem os direitos femininos, mas, especialmente, com educação”.

 

Fonte: Revista Linda (Edição 114 – junho de 2017 / adaptado).

Texto: Gabriel Rodrigues

Revisão: Marielle Rodrigues de Oliveira

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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