Lições que aprendi com meu gato

Em uma tarde de janeiro de 2008, eu haveria de encontrar na cidade vizinha, onde estava passando as férias escolares, uma caixa de sapato cheia de gatos. Na época deveria ter 11 anos de idade, estava jogando futebol com dois amigos na rua, quando, de repente, ouvimos miados vindo de um chalé abandonado na esquina. Quando nos aproximamos e alguém abriu a caixa, logo pude ver quatro filhotes de gato vira-lata – eram dois machos amarelos, e duas fêmeas que oscilavam entre três cores. Não poderia entender como alguém teria tamanha crueldade a ponto de abandonar seres indefesos. Eles ainda estavam com os olhos grudados, provavelmente teriam pouco mais de uma semana de vida, ou nem isso. E agora, o que eu poderia fazer para ajudá-los?
 
Me senti na responsabilidade de ser o tutor deles, dar água, comida, só não teria condições de ficar com eles, pois não havia espaço disponível. No entanto, essa não era a primeira vez que eu encontrara filhotes abandonados, mas também não era a primeira que eu resgataria todos. Fui até a uma clínica veterinária próximo dali, peguei alguns sachês de ração para filhotes e um pote de água em casa. Minha única saída foi deixá-los passar a primeira noite fechados dentro de uma capela de pedra, localizada no jardim do chalé onde eu os encontrei. Não tinha certeza se eles sairiam de lá vivos. 

 

Pode ter sido milagre, mas na manhã seguinte estavam todos dormindo, embolados em um só monte. Assim, levei a ninhada para casa. Por surpresa, a cadela que vivia ali, passou a amamentar os gatos. Era o instinto materno falando mais alto que as diferenças, afinal, ela nunca teve filhotes. Sentado no chão, rodeado por aqueles filhotes, sabia que não poderia ficar com todos, portanto, deixei que eu fosse escolhido, ao invés de simplesmente escolher. “O primeiro que se aproximar vai ser o que eu vou adotar”, pensei. Foi então um dos filhotes amarelos. Esse seria o meu novo amigo. 

 

Pouco a pouco, os outros irmãos iam tomando rumos diferentes. O outro macho foi adotado por uma mulher apaixonada por gatos, que daria ele de presente à sua filha. Inclusive, depois de algum tempo, ela chegou a mostrar uma foto dele grande, bem cuidado, deitado em uma cesta. As duas fêmeas foram encaminhadas para adoção. Espero que elas tenham tido a oportunidade de ter um lar e de viver em boas condições. Já havia se passado uma semana. Precisava viajar com a miniatura de gato de volta para casa. Por sorte, consegui carona com uma amiga que voltaria de carro. Lembro bem desse dia, não foi fácil controlar o filhote dentro de uma caixa na estrada. Quando finalmente cheguei em casa, tratei de escolher um nome, logo disse: “Alemão”.

 

Há muito tempo, mais precisamente desde os meus quatro anos de idade, eu já tinha um cachorro, o Guto, um vira-lata que foi meu companheiro até o ano passado, quando faleceu em decorrência do câncer. Mas antes disso, já havíamos adotado outro cachorro, mais um vira-lata. Esse era o Caco, cuja maior diversão consistia em morder as orelhas ou o rabo do gato amarelo. Assim cresceu o Alemão, numa proporção que parecia com o Garfield dos quadrinhos. O Alemão brincava muito quando filhote, até quando adulto. Ao mesmo tempo, era um gato extremamente dócil e tranquilo. Podia ver ele me cuidando onde quer que eu fosse. Não importa o horário que eu chegasse, lá estava ele esperando, rolando no chão de barriga para cima. Poderia entender perfeitamente como um “oi”.
Chegou o dia que eu ganhei uma câmera fotográfica semiprofissional, fiz curso de fotografia e passei a fotografá-lo quase que diariamente, durante anos (até poucos dias atrás). Era uma forma de passatempo, além de treinar uma das minhas funções como jornalista hoje. Toda vez que uma câmera ou celular estivesse apontado para ele, o gato ficava parado, praticamente imóvel, olhando fixo para a lente, como se entendesse bem qual era a sua função ali naquele momento. Algumas vezes, ele fazia o mesmo, mas olhando diretamente para mim, como se estivesse tentando desvendar meus pensamentos, e toda vez que eles não estavam muito positivos, ele tratava de se aproximar, senão se deitava ao meu lado. Sem demora, a harmonia se restabelecia.



Por fim, adotamos um gato preto, o Nego, também vira-lata (sim, eles são os melhores). Digo mais: essa história de que gatos pretos dão azar não passa de balela. Embora os dois vivessem se lambendo e brigando, no fundo um gostava do outro. Afinal de contas, irmãos são assim. Toda vez que queria comida, o amarelo batia no vidro da porta, e fazia isso quase toda hora. Ainda cedo, os dois se colocavam a miar para tomar o café da manhã. No domingo passado, entretanto, o coro perdeu força. O amarelo não estava ali. Fiz o possível para encontrá-lo, procurei por toda a vizinhança, na rua e nas paralelas, com cartazes e publicação na rede social, mas sem sucesso. Casualmente no mês de janeiro, depois de nove anos, chegou a hora de dizer adeus? 

 

Nossos caminhos, até então únicos, por uma circunstância da vida tomaram rumos diferentes. Partidas sempre são difíceis, quem sabe por esse motivo ele tenha ido embora sem se despedir. Talvez um dia há de nos reencontramos novamente. De fato, os gatos não servem só para comer e dormir. Nenhum animal que passa em nossa vida é em vão. Eles têm muito a nos ensinar, além dos conhecimentos adquiridos através dos livros ou de diálogos humanos. Nota-se nos pequenos gestos, quase imperceptíveis. Com este gato eu aprendi o que é amor sincero, o que é ser verdadeiro, amigo e companheiro, com doação e desprendimento. Por isso sou grato de ter sido escolhido e aprendido durante a sua passagem na minha vida. Até logo, meu amigo.

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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