A importância da empatia no mundo atual

Análise de Modernidade Líquida, livro que aborda a sociedade contemporânea, globalização e direitos humanos

Ao passo que a humanidade conquista a independência no mundo moderno, beira cada vez mais a individualidade e o egoísmo. Vivemos em sociedade, dentro de um sistema capitalista que visa a cultura do consumo, da descartabilidade e das relações líquidas, tal como o sociólogo polonês Zygmunt Bauman descreve em seu livro Modernidade Líquida, publicado em 2001 pela editora Zahar. Segundo o pensador, num mundo cada vez mais dinâmico, fluído e veloz, evidencia-se a fragilidade dos laços humanos e a construção de vínculos interpessoais. A questão é: onde o outro habita além de nosso limitado campo de visão e de interesses próprios?

Em Modernidade Líquida, Bauman lança metáfora do mundo pós-moderno e sua liquidez, reflete relações humanas e expõe a face desumana do capitalismo. Foto: Reprodução/ Divulgação

Presos dentro de nós, podemos nos questionar o conceito de liberdade. Todos os nossos pensamentos, comportamentos e ações dependem única e exclusivamente de nós. Claro, o ambiente e os grupos aos quais fazemos parte podem nos influenciar em pequena ou grande escala, mas tudo se estabelece diante ao que é intrínseco e inerente à nossa própria personalidade. E quem somos nós? Até que ponto o “eu” pode se considerar um outro “você?”.

Nesta obra, o autor diz que “apenas duas estratégias foram utilizadas na história humana quando a necessidade de enfrentar a alteridade dos outros”. Para Bauman, estas duas estratégias consistem em: impedir o contato físico e a interação social ou “ingerir” corpos e culturas no sentido literal da palavra, como acontece nas práticas de canibalismo e cruzadas culturais. A primeira opção, portanto, visa o auxílio ou aniquilação do “outro”, enquanto a segunda, a suspensão ou extermínio de sua alteridade.

Contudo, esse processo de diferenciação faz parte também da construção de nossa própria identidade, moldando “o que eu sou” com “aquilo que eu não sou”. É o que se observa quando determinados sujeitos de grupos étnicos diferentes e de perspectivas distintas se encontram. Quando ocorre um conflito entre o “familiar” e o “estranho”. Ao distinguirmos aquilo que não somos, automaticamente determinamos aquilo que somos.

De acordo com Bauman, os discursos e as relações de poder moldam o sujeito, ou seja, aquilo que ele é. Para que possamos enxergar o lugar e a vez do outro em nosso próprio mundo subjetivo, é necessário que façamos uma autoanálise daquilo que somos e o que queremos, e entender que o outro também carece de seus próprios interesses e necessidades. Dessa forma, torna-se mais fácil o caminho de percepção do outro.

Ilustração promove reflexão sobre empatia e alteridade. Crédito: Reprodução/ Divulgação

CURIOSIDADE

Considerado um dos maiores pensadores do século XX, o polonês Zygmunt Bauman faleceu aos 91 anos de idade em janeiro deste ano, na cidade de Leeds, no centro-norte da Inglaterra. Bauman atuava como professor emérito de sociologia da Universidade de Leeds desde 1971, e foi responsável por uma prodigiosa produção intelectual. Autor de 35 obras publicadas no Brasil ao longo de várias décadas, o sociólogo e filósofo reflete sobre a era contemporânea em temas como a sociedade de consumo, ética e valores humanos, as relações afetivas, a globalização e o papel da política.

Em 2015, Bauman esteve no país e concedeu entrevista ao programa Milênio, da Globo News. O pensador falou sobre a liquidez da pós-modernidade, as diferenças entre os séculos XX e XXI, o excesso de informação e a crise que assola o mundo. Confira na íntegra:

Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas. – Zygmunt Bauman

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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