História de meninos presos na caverna da Tailândia está relacionada com lenda, diz jornal indonésio

Segundo a publicação, moradores locais acreditam que espírito da caverna teve participação no caso

Nesta segunda-feira (23) completou um mês que o mundo recebeu a notícia do desaparecimento de doze meninos e do técnico do time de futebol em Chiang Rai, província da Tailândia. Nove dias após o ocorrido, na noite do dia 2 de julho, os garotos com idades entre 11 e 16 anos e o treinador deles, um ex-monge de 25 anos, foram localizados presos no interior da caverna de Tham Luang Nang Non, inundada por uma intensa chuva. Com as saídas bloqueadas, o time dos “Javalis Selvagens” manteve-se abrigado sobre uma rocha.

Para chegar até lá, junto a uma equipe de resgate com profissionais de diversos países, mergulhadores percorreram um tortuoso caminho durante seis horas a partir da entrada da caverna. Após oito dias, o mundo acompanhou o emocionante desfecho da operação de resgate – os meninos e o homem foram retirados com vida do local, em boa condição de saúde e sem apresentar sinais de estresse, conforme noticiado pela mídia internacional. Durante o período no interior na caverna, o treinador do time aplicou técnicas de meditação para ajudá-los a manterem-se vivos.

Registro dos meninos da equipe de futebol e o treinador ainda nas profundezas da caverna tailandesa. Foto: Reprodução/ Internet

LENDA DA CAVERNA

Entretanto, outro fato vem despertando a curiosidade do público – e que pode, ao menos, dar um novo significado ao acontecimento – a história está relacionada a uma antiga lenda tailandesa, aponta uma reportagem publicada pelo The Jakarta Post, jornal diário em língua inglesa que circula pela Indonésia. Na seção opinião, veiculada na edição do dia 17 de julho, a palestrante indonésia Maya Dania, da Escola de Inovação Social da Universidade Mae Fah Luang, de Chiang Rai, associa o episódio ao conto da caverna Tham Luang Nang Non (ou “caverna da mulher reclinada”, na tradução), habitada pelo espírito de Jao Mae Nang Non, uma princesa do antigo reino de Lanna (correspondente aos séculos 13 e 18). Segundo a lenda, o local marca uma trágica história de amor e que teria sido despertada na atualidade.

Conforme o relato, Jao Mae vivia um romance proibido com um plebeu que trabalhava em um estábulo e engravidou dele. O casal então teria buscado esconderijo dentro da caverna enquanto fugia do rei, o pai de Jao Mae. Contudo, ao sair em busca de alimento, o rapaz foi capturado pelo exército e morto. Desolada, ela teria se esfaqueado até a morte e, segundo o conto, seu corpo reclinado tornou-se as montanhas, seu sangue deu origem ao rio Mae Nam Mae Sai e seus genitais, a caverna. Influenciados pelas tradições brâmane, budista e animista, os tailandeses acreditam que ela é a “governante espiritual sagrada” da caverna, situada na área montanhosa de Chiang Rai.

Infográfico traz detalhes sobre a caverna na Tailândia. Foto: Reprodução/ Internet

Em um trecho da publicação, a escritora diz: “Antes dos meninos serem encontrados vivos, os moradores locais me disseram que acreditavam que o espírito da princesa desempenhou um papel no desaparecimento deles. Os moradores disseram que precisavam se comunicar com a governante da caverna para encontrar os meninos. Eles pediram a ajuda de um monge do distrito de Tachilek, Myanmar, uma cidade fronteiriça com Mae Sai, que acreditava ser a reencarnação do amante da princesa. Enquanto o monge se comunicava com a princesa, ele disse que os meninos e o treinador estavam vivos, no entanto, a princesa pedia em troca que um homem permanecesse com ela”. 

Nesse contexto, Maya completa: “Tive arrepios quando soube que os Navy SEALS [sigla da força de operações especiais da Marinha] tailandeses perderam um dos seus melhores, o oficial Saman Kunan […]. A notícia me fez lembrar dos habitantes locais recitando o pedido da princesa”. Nos comentários de uma série de postagens publicada pela brasileira Paula Riker no Twitter, com trechos traduzidos da reportagem, um internauta também associou esse fato à morte do ex-mergulhador Saman Kunan (38). Kunan atuou voluntariamente na operação de resgate dos meninos. Acompanhe a sequência clicando no link abaixo.

No correr da leitura, é dito: “As cavernas são lugares de perigo, mas também de possibilidade. Para encontrar os garotos perdidos, os tailandeses buscaram respostas e ajudaram as criaturas míticas. Segundo relatos, eles chegaram a um santuário perto da caverna, prostraram-se, acenderam velas e rezaram em frente a uma estátua de uma jovem mulher vestindo uma roupa rosa tradicional, cercada por flores e outras oferendas – a princesa“. E segue: “Mais e mais monges e pessoas santas chegaram para realizar vigílias na caverna. As autoridades tailandesas apelaram para o espírito da caverna montando santuários, queimando incenso, oferecendo comida e bebidas, incluindo a entrega de uma cabeça de javali fervida, um símbolo do nome do time de futebol”.

Em outro trecho, Maya revela: “Para localizar o time de futebol e trazê-los de volta em segurança, foi sugerido que os socorristas devessem tentar ter representações do símbolo do Buda para superar o poder dos espíritos. Mergulhadores colocavam braceletes budistas nos pulsos, um eremita ficava ao lado da estrada que levava à caverna, os moradores locais pediam perdão por qualquer dano contra a natureza e pediam aos espíritos que libertassem as crianças. Suas orações soavam como ‘por favor, espíritos da floresta, por favor, protejam as crianças'”. Com o desfecho feliz para esse resgate histórico, a escritora encerra a publicação com a seguinte reflexão: “Estou impressionado com a forma como os tailandeses combinaram a espiritualidade tradicional com a tecnologia moderna para resolver um problema em conjunto. […] Este incidente também nos lembra que às vezes precisamos de nossa cultura local e crenças tradicionais para entender nosso próprio ambiente”.

Reportagem publicada pelo jornal The Jakarta Post na íntegra. Foto: Paula Riker/ Twitter.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Após terem assistido à final da Copa do Mundo da Rússia (tendo recebido, inclusive, convite da Fifa para assistirem ao jogo de perto) e terem jogado a primeira partida de futebol, os meninos tailandeses iniciaram nesta terça-feira (24) um retiro espiritual e serão ordenados noviços budistas. O treinador virará monge. Um dos garotos, de 14 anos, é cristão e não será ordenado. O budismo é a principal religião da Tailândia e é seguido por mais de 90% da população.

Primeira aparição dos meninos e do treinador de futebol após receber alta do hospital. Crédito da foto: Soe Zeya Tun/ Reuters

QUEM É PAULA RIKER

Após a repercussão dos tweets, a dentista manauense Paula Ricker (28) contou ao Tudo Improviso que está há três meses na Indonésia em viagem de turismo, e escreveu: “Acho que é uma história que merece ser contada!”. Paula acompanhou o caso pela mídia internacional e pela rede de televisão local, que trazia informações diárias sobre o time tailandês. “Quando conversei com pessoas locais a respeito, elas diziam que pediam que Alá fosse misericordioso com essas crianças e suas mães… Aparentemente a situação tinha um apelo maior entre as mulheres… E mais na mídia internacional”, disse.

A Indonésia está situada entre os continentes da Ásia e Oceania, distante quase três horas de voo da Tailândia, e é um país majoritariamente muçulmano, conforme observa Paula. “A Indonésia tem suas próprias catástrofes… Aqui aconteceu de um barco para 43 pessoas afundar com cerca de 200 nessa época… também estamos com vários vulcões entrando em erupção, inclusive em Bali que é um dos pontos mais turísticos… então acabam noticiando mais essas coisas. E tudo ocorreu um pouco depois do final do Ramadan (mês sagrado para os muçulmanos)”, conta.

Crédito da foto de capa: Lillian Suwanrumpha/ AFP.

 

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Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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