A história da jovem que escapou por pouco do incêndio na boate Kiss

Cinco anos depois de escapar da tragédia em boate gaúcha, Verônica Betat conclui a faculdade e comemora um destino feliz

A madrugada do dia 27 de janeiro de 2013 marcaria para sempre a memória de familiares de vítimas e sobreviventes do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), que resultou na morte de 242 pessoas e feriu outras 680. Perto de completar cinco anos da segunda maior tragédia da história do Brasil, a viabilidade da construção do memorial no local que ficou marcado pela tragédia nunca esteve tão perto de se concretizar. Para os pais, a melhor situação seria estar junto aos filhos orientando, vivendo seus sonhos, comemorando suas conquistas profissionais e aguardando o fruto dos seus relacionamentos, como família e netos, mas esses sonhos foram retirados de muitas famílias. A jovem Verônica Betat, 24, formanda em Engenharia Agronômica, residindo hoje em Cruz Alta, estaria presente na festa, inclusive com o nome já confirmado na lista de presença, mas, felizmente, o destino não quis assim. Seu namorado, Bruno Mussoi, 26, participou da festa, mas acabou saindo horas antes do incêndio. Eles se conheceram três meses após o ocorrido e se formarão juntos no próximo dia 27, quando completam quatro anos de namoro e exatamente cinco anos depois do acidente.

Marcas do tempo: cinco anos após a tragédia da Kiss, o nascimento da irmã Laura e a graduação, Verônica comemora boa fase ao lado da mãe Elis. “Estou muito feliz”, fala. Foto: Reprodução/ Divulgação

CONSELHO DE MÃE

Dizem que Deus fala através das mães. Por mais que os filhos muitas vezes não costumem dar ouvidos a elas, mesmo contrariados, as mães sempre vão orientar para o bem deles e dar os melhores conselhos. Um “não” de Elis Regina Bello Siqueira, 45, corretora de imóveis, à filha Verônica salvou a sua vida.

Como residia à época no Calçadão de Santa Maria, a poucas quadras da extinta casa noturna, em conjunto com mais duas calouras, Verônica combinou de ir ao evento. Já de férias do cursinho pré-vestibular na residência da mãe em Cachoeira, Verônica diz que Elis estranhou ir a Santa Maria nesta época e ao explicar o porquê ela acreditou que não fosse uma boa opção, e foi se mostrando cada vez mais negativa à ideia. Dois dias antes ela foi categórica ao não permitir. “Como nosso relacionamento é de confiança, estranhei e não aceitei aquela imposição, mas não houve conversa e acabei ficando em casa, nada feliz! As outras calouras tiveram motivos diferentes e também não compareceram”, conta.

“… SENTIA ALGO RUIM”

Mãe também de Laura Calvett, 5, Elis conta que assim que Verônica começou a comentar que iria na festa, a sensação ruim predominava. “Quando chegou perto do dia, durante a semana, ela já tinha combinado de ir para Santa Maria com meu afilhado, porém, como eu seguia com aquele aperto no coração e era tão forte, imaginei que algo ruim poderia acontecer na viagem e não deixei que eles fossem… Ela ficou muito chateada e meu afilhado, sem companhia, desistiu também”, recorda-se.

COMO TUDO ACONTECEU

Naquele fatídico dia, a estudante ligou para a mãe, que estava em viagem a Santa Catarina, para avisar que iria ao Balneário São Lourenço com duas amigas, as também estudantes Lariane Inácio e Gabriela Gaira. “Disse a ela, sem querer, que estava bem”, lembra. Porém, o pai, o advogado Alexandre Betat Basílio, 46, sem saber que Verônica não iria mais, pensava que a filha tivesse viajado para a festa.

Quando ocorreu o incêndio na Kiss, Alexandre viveu um martírio ao saber que o nome da filha estava na lista de confirmados. “Ele seguiu uma busca desesperada atrás de mim por ambas as cidades e quando me encontrou, muito emocionado, disse tudo que estava acontecendo. Eu reagi paliativamente, sem acreditar na real proporção da tragédia. Ao chegar em casa e ligar a TV, ver as imagens não me fazia acreditar, pois nós nunca acreditamos que as coisas vão acontecer conosco, e quando se percebe que por tão pouco escapou de uma tragédia com tamanha proporção, era e é inacreditável. Perdi colegas, vizinhos e amigos”, relata Verônica ao lembrar-se emocionada do reencontro com a família.

Ao ver as imagens na televisão, Elis não conteve as lágrimas com a dúvida de que a filha estaria bem. “Como fui viajar e a deixei em casa com dinheiro, pensava que ela podia ter ido, mas graças a Deus ela não me desobedeceu. Voltei para casa e o reencontro foi muito emocionante”, completa.

“Acredito que após aquele dia, as relações com as pessoas que amo mudaram de maneira geral. Principalmente quanto a orgulho e tempo, pois muitas vezes deixamos que pequenas coisas afetem nossas relações e isso me parece menor hoje em dia. Também mesmo com menor tempo disponível e estando longe, me esforço para ser presente no dia a dia familiar”. VERÔNICA BETAT

VIDA QUE SEGUE

Com planos de seguir na área acadêmica, Verônica recebe o carinho, a admiração e a torcida da família em cada passo seu. “Estou muito orgulhosa ao ver o sucesso dela e tudo que está construindo. Sou muito grata por ter minhas duas meninas lindas”, diz Elis.

“Admiro a força dos familiares que perderam seus filhos nesta tragédia e acompanho a linda trajetória de alguns, como a publicação do livro ‘Nossa nova caminhada’. Desejo a esses pais muito conforto e amor para continuar”, finaliza Verônica.

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A Agronomia da UFSM foi o curso que mais perdeu alunos na tragédia da Kiss: foram 26 mortos no incêndio. Em setembro de 2015, apenas 22 alunos da turma 86 concluíram a graduação. Vítimas da Kiss foram homenageadas durante a solenidade em Santa Maria.

 

Fonte: Revista Linda (Edição 121 – janeiro e fevereiro de 2018 / adaptado).

Texto: Gabriel Rodrigues

Revisão: Marielle Rodrigues de Oliveira

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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