Desmistificando o mito

A menos de dois dias do segundo turno das eleições, momento é crucial de decisão do futuro do Brasil

O ano é 2018, e nós vimos:

– Professores votarem em candidato favorável ao ensino à distância desde o ensino fundamental, que diz que o “brasileiro tem ‘tara’ por formação superior” e que seria melhor optar por um curso profissionalizante. Que vai contra as bolsas de acesso à universidade, mesmo preparando o aluno no decorrer do período escolar para que esse alcance uma nota satisfatória no Enem e obtenha o benefício de programas como o ProUni, Sisu ou Fies – muitos deles tendo, inclusive, conquistado o diploma através dessas bolsas.

Fim das bolsas e privatização do ensino? Banir livros sobre a ditadura e excluir livros “ideológicos e marxistas”? Atribuir o baixo índice de aprendizagem escolar “às escolas e universidades formarem ativistas”, pondo fim ao ativismo (manifesto democrático da sociedade civil). Enquanto impõe censura à órgãos como a imprensa, União Nacional dos Estudantes (UNE), universidades, professores e alunos? Afinal, “o brasileiro tem ‘tara’ por ensino superior. É só fazer um curso profissionalizante”. “Ninguém quer saber de jovem com senso crítico”. “Só tem uma utilidade o pobre no nosso país: votar. Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso […]. Só para isso e mais nada serve, então, essa nefasta política de bolsas do governo”.

De fato, o conhecimento liberta e a ignorância aprisiona. Sintetiza o rompimento de muros e a construção de pontes. A verdadeira revolução começa com um livro na mão. Estudar abre a mente para que possamos ser pessoas críticas em uma sociedade que, muitas vezes requer que “ricos sejam mais ricos e pobres mais pobres”. O futuro depende de investimentos na educação: investir em conhecimento pode transformar não só uma vida, mas toda a realidade em que se vive – esse é maior ato de rebeldia contra o sistema. Bolsistas sim, educação para todos, livre, plural e sem censura, por mérito e por direito. Pela garantia de oportunidades iguais a todos os cidadãos, abaixo às desigualdades.

“Vocês são responsáveis por um fenômeno: em todas as áreas do conhecimento as médias do Enade obtidas pelos bolsistas foram superiores às dos outros alunos”. Esse fato, explicou, contraria os opositores do programa e os que discriminaram os alunos. Existem forças políticas no país que não dizem, mas que são contra o acesso da população à universidade. […] “Não aceitem discriminação. Vocês merecem as bolsas, fizeram jus a esse direito e não devem favor a ninguém”, disse Fernando Haddad (PT), ministro da Educação (de 2005 a 2012) responsável pela implementação das bolsas de estudo (Enem, Prouni, Fies e Sisu) e de Iniciação à Docência (PIBID), da Universidade Aberta do Brasil (UAB) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia.

O candidato oponente à corrida presidencial, entretanto, pretende expurgar Paulo Freire (um dos maiores educadores do século) das escolas brasileiras por “falar de sexo” ao defender o programa “Escola sem Partido” e o fim do “marxismo escolar”. O primeiro, um movimento político criado em 2004, contestado por uma parte de professores que acredita que esse é um modelo de “ensino robotizado”, capaz de “censurar o pensamento crítico e a liberdade de expressão” do aluno e, que por sua vez, impede o respeito e a aceitação às diferenças sociais, culturais e religiosas existentes. Afinal, “ninguém quer saber de jovem com senso crítico”.

O último, definido como o conjunto de teorias do filósofo e sociólogo Karl Marx, que defende conceitos como “consciência de classe” e “luta de classes” visando o fim das desigualdades sociais. Que defende a extinção do Ministério da Cultura, órgão público responsável pela cultura e pelo patrimônio histórico, arqueológico e artístico nacional.

– O cidadão é contrário ao sistema de cotas que dá acesso a negros, índios, deficientes, estudantes de escola pública e de baixa renda em universidades, concursos públicos e mercado de trabalho, com a alegação de que “roubou a vaga de outras pessoas”. Embora tal modelo de política garanta menores desigualdades socioeconômicas e educacionais entre os membros pertencentes a uma sociedade. Visto que a educação para brancos e negros é desigual no Brasil, como mostram os dados organizados pelo movimento Todos pela Educação publicados em 2016.

Os negros são maioria da população brasileira, junto daqueles que se declaram pretos e pardos (52,9%), e ganham menos da média do país, sofrem mais com o desemprego e apresentam a maior taxa de analfabetismo, segundo levantamento do IBGE de 2014. Como disse o médico e escritor Drauzio Varella, em entrevista à BBC Brasil: “Meritocracia vale para mim e para você, que tivemos formação universitária, condições de vida muito privilegiadas”.

É também defensor de um Estado mínimo (neoliberalismo), ou seja, a não participação do estado na economia, contestado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), devido à possibilidade de trazer efeitos nocivos a longo prazo ao crescimento econômico em países subdesenvolvidos (como é caso do Brasil), aumentando a desigualdade social. Também já se pronunciou contrário ao programa Bolsa Família e às “políticas assistencialistas” – embora tenha mudado o seu discurso neste segundo turno, após a rejeição eleitoral do estado nordestino, onde cerca de 6 milhões de pessoas vivem em pobreza extrema, segundo dados do IBGE de 2016. Enfim, “as minorias tem que se curvar às maiorias. Se adaptam ou simplesmente desaparecem”.

Que mesmo sabendo que o comparativo Brasil e Venezuela é descabido, insiste na constante analogia entre os países latinos nas redes sociais. A Venezuela mantém o seu principal produto o petróleo e atravessa uma grave crise econômica, afligido por um regime ditatorial e autoritário (tal como o Brasil viveu nos anos 70 e 80) e com espectro populista, como destaca Kirk Hawkins, professor da Brigham Young University, nos Estados Unidos, e diretor da Team Populism, rede global de estudo das causas e consequências do populismo. Trazendo à nossa realidade, o que poderia transformar o Brasil em uma Venezuela é o viés militar, afirma a diretora de Estudos Latino-Americanos da Universidade Johns Hopkins, Monica de Bolle.

Que acredita em um suposto “kit gay”, cuja existência é negada pelo Ministério da Educação e desconhecida pela comunidade escolar. Que é contrário à “ideologia de gênero”, conceituado como um campo de estudo (que assim como a educação sexual é adaptada ao ensino e aprendizagem conforme a idade escolar) e não ideológico, como argumentam os críticos. A importância da compreensão desse assunto é vista como necessária no país que mais mata LGBTs no mundo. E, que apesar disso, diz: “Ter filho gay é falta de porrada”.

– Pais votarem em um candidato que defende que as crianças devam aprender a usar armas de fogo, pois “não podemos criar uma geração de covardes […] (mas), responsáveis e corajosos”, a exemplo de seus filhos, que diz atirarem desde os cinco anos de idade. Que fala em “rasgar e jogar na latrina” o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), marco legal e obrigatório dos direitos humanos de crianças e adolescentes que, entre outras leis, proíbe e pune o fornecimento de arma, munição ou explosivo a menores de idade.

Que diz que “teve quatro filhos homens, na quinta vez ‘fraquejou’ e veio uma mulher” e que “não empregaria mulher com o mesmo salário do homem”, visto que “mulher deve ganhar salário menor porque engravida”. Logo, em um país como o Brasil em que mais de 40% dos lares são comandados por mulheres, sendo 1,1 milhão de famílias compostas por mães solteiras, segundo dados do IBGE de 2015. Residências constituídas por “mães e avós” e com a ausência de “pais e avôs”, definidas como “fábrica de desajustados” pelo seu vice.

– Cristãos votarem em um candidato favorável à ditadura, à tortura, ao fuzilamento e à pena de morte, condenação criminal considerada inadmissível pela Igreja Católica. Que apoia grupos de extermínio (“matadores de aluguel” que atuam nas periferias) e que disse que o Brasil só iria melhorar “quando nós partirmos para uma guerra civil”, à TV Bandeirantes, no final da década de 90.

Apoiado pela Frente Parlamentar Evangélica (“bancada evangélica”), diz ter lido a Bíblia inteira e chegado à conclusão de que o livro sagrado dos cristãos prega o armamento, que “Jesus Cristo não foi totalmente passivo” e que “usaria arma de fogo, se existisse”, ao citar uma passagem em entrevista ao portal O Globo. Tal prática revela o uso descontextualizado de versículos bíblicos para beneficiar um discurso, disse a professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, Maria Clara Bingemer, em resposta às afirmações feitas.

Ações violentas, incitação de ódio e intolerância, veementemente reprovados por Cristo, são justificados como um fundamentalismo ideológico-religioso. A religiosidade, nessa circunstância, é usada como um marketing de promoção política, como alegam teólogos e pesquisadores. Tolerância, respeito e diálogo. Esta é a doutrina da Igreja. “Além disso, o Estado é laico. O melhor governante não é necessariamente religioso”, disse o presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica, padre Telmo José Amaral de Figueiredo, ao portal O Globo.

Com o apoio da Frente Parlamentar da Segurança Pública no Congresso Nacional (“bancada da bala”), quer revogar o Estatuto do Armamento (2003), quando 1% de armas de fogo eleva em até 2% a taxa de homicídio, conforme Ilona Szabó, diretora do Instituto Igarapé. Em 2016, o Brasil encerrou com 62.517 homicídios registrados e, pela primeira vez na história, a taxa de 30 mortes violentas para cada 100 mil habitantes, como apontou o Atlas da Violência 2018, com base em dados do Ministério da Saúde. Do total de assassinatos, 71,1% foram cometidos com armas de fogo.

Pesquisadores afirmam que esse cenário poderia agravar se não houvesse restrição para a posse e o porte de armas no país. Portanto, especialistas alegam que o porte de arma seria um desastre na segurança pública.

– Ativistas animais e ambientalistas votarem em alguém que critica o número de reservas ambientais protegidas no país por “atrapalhar o desenvolvimento” e que, em vídeo, diz que “a caça é um esporte saudável”, e “vai liberar geral”, “burocracia zero” para a caça de animais silvestres – depois negada pelo mesmo. Apoiado pela bancada ruralista (“do boi”), diz que “a Amazônia não é nossa” e que “’Aquilo’ é vital para o mundo”, defendendo a exploração da floresta que abriga cerca de 50% da biodiversidade mundial “em parceria com os Estados Unidos, para salvar ao menos parte dela”. Também é defensor de rodeios e vaquejadas, e garante não apoiar maus-tratos contra os animais.

Que diz que as reservas indígenas e quilombolas não terão “nem mais um centímetro” de terra e promete expandir a rede de hidrelétricas na região amazônica. Que promete integrar o Ministério do Meio Ambiente ao da Agricultura, acabar com o “ativismo ambiental” e tirar o Brasil do acordo climático de Paris. E, que além de criticar os “excessos” na fiscalização do trabalho escravo, promete o fim da “indústria de multas” emitidas pelo Ibama e o ICMBio: “Vamos tirar o Estado do cangote de quem produz”.

– Artistas sendo hostilizados por declarar opiniões políticas, já que fazem uso da Lei Rouanet (lei de incentivo à cultura), enquanto o Ministério da Cultura apoia centenas de projetos e abre editais públicos (entre outras modalidades) financiados por empresas privadas, cooperativas, ONGs, etc., sob renúncia fiscal (as empresas optam entre pagar o imposto ou apoiar a cultura ou outras áreas).

Esses recursos, segundo o Ministério da Cultura, “não prejudicam diretamente as verbas destinadas para outras atividades do Governo” (como a saúde ou a educação, por exemplo), investidos em pequenos proponentes, produtores e artistas iniciantes. Tal prática se concentra na região sudeste, conforme o ambiente socioeconômico do país e o recolhimento do IRPJ (lucro real por região).

– Jornalistas, publicitários e profissionais da Comunicação votarem em alguém que tem como “conselheiro” da campanha o estrategista-chefe de Donald Trump durante as eleições presidenciais nos EUA, Steven Bannon. Segundo a Revista Fórum, assim como publicou o jornal britânico The Guardian, Bannon coordena um movimento para espalhar a onda conservadora de ultra-direita em partidos políticos na Europa. […] Divulgando fake news (notícias falsas) e material misógino, xenófobo e racista, o movimento ganhou força também nos Estados Unidos.

Esse processo acontece da seguinte forma: linguagem acessível; contínuas críticas aos meios de comunicação tradicionais, enquanto o político constrói os seus próprios e se utiliza das redes sociais para obter seus fins; circulação de fake news principalmente por meio do aplicativo WhatsApp, devido à facilidade de replicação do conteúdo compartilhado e a dificuldade de monitoração externa; componente nacionalista e um culto à personalidade individual.

Bannon já contratou a Cambridge Analytica, extinta empresa de publicidade britânica que combinava mineração e análise de dados com comunicação estratégica para o processo eleitoral, responsável por roubar dados do Facebook de milhões de contas de usuários no mundo, em 2014. De posse desses dados e utilizando algoritmos, a empresa traçava um perfil psicológico de possíveis eleitores que tenderam a seguir perfis e a assumir posturas radicais em relação ao governo e a determinados grupos e movimentos sociais. Também por meio de um sentimento de oposição e manipulação através do medo, como explicou o The Guardian em reportagem publicada em março deste ano.

Essa onda gerou, entre outros incidentes, “protestos supremacistas brancos […], em que fascistas e neonazistas desfilavam carregando rifles, suásticas e bandeiras carregadas de preconceitos contra as minorias”, disse a Revista Fórum, em reportagem publicada este mês.

Em agosto último, o filho do candidato se encontrou com Bannon em Nova York. Em uma postagem nas redes sociais, destacou que “tanto o seu pai quanto o ex-estrategista de Trump tem a mesma visão de mundo, e que Bannon era um apoiador da candidatura”, citando o fim do “marxismo”, conforme informou a agência de notícias Sputnik. Enquanto isso, a imprensa internacional e, pelo menos, 14 países alertam para o perigo de uma eminente candidatura fascista que ameça a democracia no Brasil.

Um mito é uma narrativa de caráter simbólico-imagético, utilizada pelos povos gregos antigos para explicar fenômenos não compreendidos. Mitos que fazem parte da sociedade atual, construídos e cultuados por ela, mas que não condizem, necessariamente, com a realidade.

Dito isso, emerge a seguinte questão: a divergência é política ou moral?

A MENSAGEM DE CHAPLIN

Charles Chaplin no filme “O Grande Ditador” (foto de capa deste post), uma sátira crítica em alusão ao ditador nazista Adolf Hitler, ao fascismo e seus propagadores, lançado nos EUA, em 1940. O discurso final ao final do filme foi usado para acusar o comediante de “comunista”, segundo alegação do policial J. Edgar Hoover, o primeiro chefe do FBI (a polícia federal americana) e pertencente a um movimento conservador e anti-comunista. Ele foi o responsável pela deportação de Chaplin dos EUA, suspeito de “atividades antiamericanas”. Perseguido pelo governo americano, Chaplin foi impedido de retornar ao país em que viveu por décadas no ano de 1952, até, por fim, estabelecer-se na Suíça, onde faleceu, aos 88 anos.

O filme recebeu cinco indicações ao Óscar em 1941 nas categorias de melhor filme, melhor ator para Charlie Chaplin, melhor roteiro original, melhor trilha sonora e melhor ator coadjuvante para Jack Oakie. Em 1997 a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos selecionou o filme para ser preservado pelo National Film Registry por ser “significativo culturalmente, historicamente ou esteticamente”. A obra foi censurada em vários países latino-americanos onde havia movimentos de simpatizantes nazistas. No Brasil o filme foi censurado durante o governo de Getúlio Vargas, na época da ditadura institucionalizada com o Estado Novo.

O que mais impressiona, no entanto, é que esse discurso proferido nos anos 40 continua atual, sobretudo na conjuntura política brasileira. Eis a importância de conhecer o passado para não repeti-lo. Assista ao discurso final de “O Grande Ditador”, com legenda disponível em português:

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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