“Bela, recatada e do lar”, feminismo e a mulher do século XXI

A matéria da Revista Veja, publicada na última segunda-feira (18), levantou uma polêmica em plena crise política ao descrever o perfil da ex-miss e bacharel em Direito Marcela Temer, esposa do vice-presidente Michel Temer, como “bela, recatada e do lar”. Este conceito de “mulher perfeita” é um estereótipo feminino ultrapassado e machista. A mulher do século XXI não quer ser prisioneira dos padrões de beleza, nem que a digam como ela deveria se comportar, sê recatada ou desbocada, ou ditem o que ela deveria estar fazendo, seja no lar ou no bar. Afinal de contas, lugar de mulher é onde ela quiser. 
A atriz britânica Joanna Lumley interpreta a espiã Purdey, na série de TV The New Avengers (1976-77).
 
Veja o que diz a acadêmica de Serviço Social da UFRGS, Fernanda Escobar, 18, fundadora do grupo feminista Voz das Minas, de Cachoeira do Sul (RS), sobre a matéria da Veja, além de discutir o feminismo e o papel da mulher na sociedade atual junto ao coletivo.
 
Ao fundo, o painel da pintora mexicana Frida Kahlo, símbolo do feminismo.

 

“A campanha que surgiu a partir da matéria da Veja é legítima e é muito importante que as mulheres estejam problematizando esse estereótipo que foi claramente estampado na infeliz matéria da revista. É importante ressaltar que o feminismo e nós que estamos criticando a matéria não somos contra esse estilo de vida de dona de casa, e sim somos contra a ideia de que esse é o único modo que uma mulher é valorizada – a mulher bela, recatada e do lar. As mulheres sofreram por muitos anos por estarem fadadas a serem donas de casa e não terem a possibilidade de escolherem uma carreira, etc. Existem mulheres de todos os tipos e que adotam inúmeros estilos de vida e com certeza não são inferiores por abdicarem da vida doméstica. O feminismo é sobre escolha, sobre ser respeitada independente dessa escolha e ser livre para poder escolher”.

 

VOZ DAS MINAS 

 

 

Da esquerda à direita, as estudantes Fernanda Escobar (18), Alana Anillo (19), Clarisse Stringuini (13) e Rhaíssa Porto (19). Ao fundo, Morgana Trojahn (18), Maria Fernanda Lopes (15), Manuela Ferreira (17) e Myrela Rosa (18).
 
O grupo é composto por cerca de 210 membros que se reúnem mensalmente em espaços públicos para discutir sobre temas ligados à libertação da mulher do padrão midiático, bem como a objetificação, (hiper)sexualização feminina e a cultura do estupro. “Em uma sociedade em que o preconceito é considerado culturalmente ‘natural’ ou ‘normal’, onde muitas de nós são jogadas à margem da sociedade e vivem em abjeção, construir um debate sobre isso se faz necessário”, afirmam. O grupo fala também sobre violências como transfobia, misoginia, sexismo, cissexismo, lesbofobia, racismo e outras. “São questões estruturais e intrínsecas em nossa sociedade sem que as percebamos e que podem ser notadas desde atitudes simples do cotidiano até nos mais recentes retrocessos observados em alguns projetos de leis”, explicam. 

 

FEMINISMO X MACHISMO – Para o Voz das Minas o machismo é uma estrutura de poder. Feminismo, por outro lado, é um movimento social e político que procura enfrentar e desconstruir/acabar com as formas de opressão com recortes de gênero, classe, raça, sexualidade, que marcam as vivências e corpos. “O feminismo, ao contrário do que muitos pensam, não é o contrário de machismo e muito menos a supremacia feminina”, explicam. “Existe uma pluralidade de feminismos. Nossas lutas são muitas. Somos muitas e, além de tudo, bastante plurais: cada uma com suas demandas, nos unindo para formar uma luta conjunta”, entendem. 

“Não lutamos por igualdade, mas sim por direitos iguais. Não apenas no que tange a questão da legislação, mas também culturalmente falando, visando o fim da socialização e reprodução do machismo. Nós não queremos ser iguais aos homens. Para um gênero opressor, igualdade não é o fim da violência. A igualdade é uma utopia, pois o gênero já foi designado culturalmente para ser desigual. Nossa luta é pela libertação, emancipação feminina e pelo fim de todo e qualquer tipo de violência”. 
O QUE ELAS PENSAM – O Voz das Minas quer, através de ações conjuntas, chamar atenção para esses preconceitos para, posteriormente, conseguir quebrar esses paradigmas. “Não pretendemos fazer pelas mulheres, mas sim com as mulheres. No grupo, nos unimos e nos apoiamos, ao contrário do que dita a sociedade: ‘mulheres são rivais’, ‘elas competem umas com as outras’, ‘são constantemente ensinadas ao ódio recíproco'”, salientam. “A sororidade – que é o ato de nos reconhecermos como irmãs – está presente entre nós e pretendemos expandir este laço”, propõem. Segundo o grupo, é preciso que o discurso feminista acolha mulheres que vivem em situações de vulnerabilidade. “Não se trata apenas de dar a mão para as amigas que, de certa forma, são privilegiadas: a luta deve ir além e também acolher a mulher transgênera, a mulher que limpa todos os dias as nossas casas, a mulher negra, etc.”, completam. 

MÍDIA E PADRÕES DE BELEZA – O grupo diz que a mídia ajuda na perpetuação de padrões e julgamentos, pois escolhe e dita o que é belo ou não. “Somos todas lindas. O padrão eurocentrista acaba por contribuir com a destruição da autoestima de sujeitos que não são representadas por ele. Entretanto, é preciso lembrar que o debate deve ser feito não apenas aqui, mas sim em todo o lugar”, concluem.
MULHERES E O ASSÉDIO – De acordo com o Voz das Minas, mulheres ainda são culpabilizadas quando sofrem assédios. “Ainda é difícil sair na rua sem sermos atacadas verbalmente. Sofremos pornografia de revanche/vingança, sexismo, cissexismo, transfobia, além dos disfarçados relacionamentos abusivos”, argumenta o grupo.
POLÊMICA EM TORNO DO ABORTO – Este é um assunto bastante delicado, que mesmo dentro do movimento gera divergências opinativas por falta, por exemplo, de informação e reflexão sobre o assunto. O Voz das Minas ressalta que se dizer a favor da legalização do aborto não é sinônimo de ser a favor do aborto – da prática. Elas afirmam que o movimento feminista, sob o estandarte “meu corpo, minhas regras”, prega pela liberdade da mulher. O empoderamento de seu corpo e alma. “Por isso, quase que em sua homogeneidade, o feminismo é a favor da legalização do aborto, pois isso culmina no aparato legal final que objetiva o controle e reificação dos corpos discursivamente femininos”, explicam. “Não é papel do Estado regular o corpo da mulher e obrigá-la a gerar uma vida sem que assim o deseje. No entanto, é papel fundamental do Estado prover um sistema de saúde de qualidade e que esteja preparado para receber estas mulheres”, entendem. “Um fato que é maquiado pelos grandes veículos midiáticos e marginalizado pela sociedade é que, mesmo criminalizada, a prática do aborto continua existindo. Milhares de vidas femininas são ceifadas em verdadeiros abatedouros humanos, isto é, clínicas clandestinas”, revelam. Segundo elas, as mulheres pobres são as mais prejudicadas, pois a burguesia goza do uso de métodos mais seguros, enquanto para a parte esquecida restam apenas procedimentos arcaicos e letais.

* Este post contém informações divulgadas pela Revista Linda de Cachoeira do Sul (ano 9, nº 100, março 2016), em matéria escrita por Gabriel Rodrigues (autor deste blog).

Sobre o autor

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues, estudante de Jornalismo, criador de conteúdo, repórter e fotógrafo.

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